sábado, 8 de abril de 2017

Essa é a última parte do meu primeiro conto escrito seriamente. Três ao todo, foram 4 semanas de escrita. Para ler deve-se começar da parte um, e ler em sequência. Para aqueles que leram desde quando comecei a postar, espero que gostem do final. Eu sinceramente adorei a última parte em especial.

(parte três)

Cronos

Cronos brincava despreocupadamente na varanda. Tinha seis anos agora. E como a mãe previu, era uma peste. Aprontava todas unido ao seu inseparável amigo, O-cão-mais-odiado-de-todos-os-tempos. Apelido carinhosamente dado por Cronos em pessoa. O porquê ninguém sabia. Mas uma coisa era certa, Cronos o amava.
Escutava da varanda os pais conversando. A professora o acusou novamente de aprontar com o colega de turma, Denis. Odiava aquele garoto. Não sabia o que era odiar, só sabia que o pai odiava os políticos e sabia que Denis ia ser um desses políticos no futuro, sabia não, tinha certeza. E por isso o odiava mesmo sem saber o que era odiar.
Um dos outros professores viu Cronos pintar a mochila do Denis durante o intervalo. Tentou levá-lo a direção, inutilmente, porque Cronos estava brincando na educação física sob o olhar de sua professora e ele não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Cronos não precisava estar em dois lugares ao mesmo tempo, só precisava estar em um lugar diferente em um tempo diferente.
Por isso a discussão. Os pais estavam preocupados com o filho. Alguma coisa sobre não ter muito tempo – não entendia porque isso seria um problema. Alguma coisa a ver com câncer. Alguma coisa a ver com a mãe precisar de ajuda no futuro. Alguma coisa sobre o pai não poder ficar por muito tempo. “Ela não precisava da ajuda de ninguém, é só ir ajudar mainha” pensava Cronos.
– Cronos, vem aqui por favor. Pediu o pai. Já conversamos sobre isso, não pode fazer mal aos coleguinhas.
– Mas pai, o Denis tinha machucado a Alice mais cedo puxando o cabelo dela.
– Você é um garoto muito amado e especial. Você fez a coisa certa, mas isso não importa. Você não deve fazer esse tipo de coisa, nunca.
–  Mas eu fiz ele pagar que nem o senhor faz no seu trabalho quando pune os malvados.
– Cronos, você não pode ser descoberto, não pode sair e fazer o que quer. Não é você que deve punir as pessoas. Você tem que brincar e crescer. Promete que nunca mais fará nada do tipo.
– Mas pai. E antes de continuar olhou para o pai e parou. Tá bom, prometo.
– Muito bem, agora vá brincar com o cão sei-lá-o-que.
Saiu pensando no rosto do pai. Sentia-se triste por ter deixado ele com aquela fisionomia.  Mal sabia ele do orgulho sentido pelo pai. Orgulho e preocupação. A dúvida e o medo sempre diziam que seu maior tesouro seria descoberto e seria trancafiado para estudos.
Denis aprontou de novo. E a vontade de sumir com as coisas dele foi muito grande, mas controlada pela lembrança da promessa feita ao pai. Devia ser forte e deixar para os adultos resolverem, afinal o pai era adulto e ele sempre sabe resolver tudo.
O escolar virou a esquina da rua e Cronos viu de relance luzes em vermelho e azul na frente de casa. Forçou o rosto contra a janela para tentar ver melhor, em vão. Quando desceu do ônibus viu que as luzes estavam na frente da sua casa. Correu em direção a ambulância e antes de chegar foi detido por Cleide. Olhou em volta procurando o pai ou a mãe. Sabia o que era aquilo, já havia visto, presenciado.
Tirou de si as mãos de Cleide. Olhava hipnotizado para aquela confusão de cores e pessoas. Sabia o que ia encontrar. Sua mãe, branca como a neve, parada olhando para dentro do veículo, desolada, destruída. Vizinhos em volta, curiosos. O-cão-mais-odiado-de-todos-os-tempos latia ferozmente de dentro da casa. Olhou para a esquina mais ao sul de onde estava e se viu por um instante. Tudo durou alguns segundos, na verdade foram eras. Não precisava perguntar, já sabia quem estava sendo levado pelos paramédicos.
Cleide o carregou para dentro de sua casa. O-cão-mais-odiado-de-todos-os-tempos veio lamber sua mão. Chorou aos seus calcanhares. Em direção ao quarto, só pode ouvir os murmúrios da sua acompanhante, indecifráveis. O mundo havia parado para ele; não, não o mundo. O tempo havia diminuído.
Cronos estava tão nervoso, o coração batia tão rápido, estava eufórico. Finalmente iria visitar o pai. Depois de tantos dias, poderia abraçá-lo. Ao descer do carro, cada passo parecia uma eternidade. Estranho era que isso sempre acontecia quando estava nervoso. Ainda não controlava como queria o pai durantes os treinamentos. “Nunca esqueça de respirar, Cronos” lembrou. “Mantenha a respiração, e sempre avance.”
A mãe o guiou para dentro do quarto. – Continue, Cronos, tenho que falar com o doutor. E foi avançando sempre, um passo por vez, sempre respirando. Com a respiração ofegante, o coração forte no peito – parecia que ia explodir – viu o pai na cama.
– E ai garoto, pode vir mais perto. Você já deve ter visto mesmo.
– Vi não pai. Respondeu olhando para o chão. Não queria mostrar que havia sido medroso.
– Não tem problema, garoto, sempre seja sincero com o seu coração.
O pai o puxou para a cama e o deitou ao seu lado. Cronos sentiu o afago nos cabelos e chorou até dormir. Assustou com um barulho pontual frenético. Era uma máquina ao lado da cama. Antes de poder pensar o que estava acontecendo foi puxado da cama por mãos fortes e firmes de um estranho vestido de verde, era o enfermeiro que o largou no colo da mãe. Não sabia o quanto havia dormido, e nem pensava nisso. Não conseguiu pensar em nada. Não conseguia respirar.
Olhou todas aquelas pessoas mexendo no pai, que o olhava e acenava para ele. Estava o chamando para mais perto. Devagar, tirou as mãos da mainha que o abraçava e andou em direção ao pai; dessa vez lembrou de respirar. Na parede, o relógio parou as onze horas e seis segundos. E ao chegar no lado da cama, pegou a mão do seu guardião, do seu herói. E como efeito, os dois estavam no mesmo instante, na mesma pausa do tempo.
– Oi filhão.
– Pai não morra por favor.
– Bem que eu queria garoto.
– Por que? Eu posso voltar.
– Não sei porque. Talvez nunca saberemos. Não quero que você faça isso, garoto.
– Por favor pai. Disse enquanto o pai acariciava suas bochechas. Eu preciso do senhor.
– Você tem as bochechas da sua mãe. Lembra quando eu viajei e fiquei alguns meses fora? Eu estava naquela praia que você ama tanto.
– Sim, eu lembro.
Silêncio.
Sentiu a mão no seu rosto descer devagar. Agarrou o mais forte que pode. Com a voz tremendo, começou a balbuciar:
– Pai, pai, pai. Repetia enquanto tentava segurar a mão pesada no seu rosto. Em vão.
– Pai! Gritou.
Enfermeiros, médicos, Mainha, todos se admiraram com aquela criança do lado da cama chorando. Afastaram-se para observar. Era só o que podiam fazer.
***
O sol energizava tudo a sua volta, as arvores, a areia, o mar. Nada escapava ao seu ardente toque. O vento soprava forte; contudo, como um carinho intenso e constante, alisava seu corpo. Podia sentir a força do vento contra seu corpo. O barulho da quebra do mar atraia os ouvidos para a seu ritmo constante. Sol, vento e mar uniam-se para criar a música do mundo. Um equilíbrio de beleza, força e sublime.
Caminhava por esse milagre e pensava na sua família, era tudo o que mais tinha de importante no mundo. E se tudo desse certo poderia viver com eles uma vez mais. Se o plano corresse bem, voltaria a ver sua esposa e seu filho. A esperança estava em cheque, tudo se resumia que o seu filho – aquele misterioso milagre – crescesse e se tornasse a pessoa poderosa que estava destinada.
Enquanto caminhava em direção ao soprar do vento iludiu-se com uma miragem. Duas sombras se projetavam a sua frente. Ilusão causada pela irradiação de calor advinda do tapete de areia. Dirigiu-se a ela com os pensamentos nas altas probabilidades e nas dificuldades que o futuro reservava a família. “Se o plano der certo, tudo ficará bem”.
Uma rajada de vento o chamou de volta a caminhada e olhou para a miragem: sua família o olhava de volta. O plano havia funcionado. Ali estavam, a sua frente, esposa e filho. Este crescido, não mais que um adolescente, não menos que um adulto; um jovem alto e bonito sorria e chorava; alegria e jubilo estampavam o seu rosto.

Correu o mais rápido que suas pernas o permitiram. Esqueceu de respirar, o coração explodia em seu peito, lágrimas escorriam pela sua bochecha. Sua família estava a sua frente e corria ao seu encontro também. Abraçou sua esposa, sua alegria, sua musa e amada, beijou-a nas bochechas, no queixo, na boca. Agarrou seu filho, abraçou-o fortemente. Estavam os três juntos novamente, unidos pelo milagre do seu filho, unidos além do tempo.

sábado, 1 de abril de 2017

Mainha
(parte dois)

O bebe a acordou. Ele se movimentava muito, sinal de saúde. Olhou as 7:45 marcadas no relógio sob o criado mudo. “Eita menino que vai dá trabalho esse, viu.” Respirou fundo e aguentou o mexe-mexe do pestinha. Soltou o ar com um sorriso que dizia mais sobre sua alegria do que qualquer poema já escrito.
Assustou-se por alguns instantes ao ver-se sozinha na cama. Ainda assustada, olhou em volta procurando-o só para achá-lo parado de frente a janela.
-- Amor? Chamou. Tá tudo bem? Perguntou. Um movimento nervoso na barriga a fez acariciar a barriga.
-- Amor?! Chamou novamente. Levantou da cama lembrando-se de respirar. De repente, o ar estava pesado. Alcançou o ‘fantasma’ e pegou no seu ombro. Despertou-o.
-- Oi, já está acordada hein, se sente ai que tenho algo para te falar.
-- Amor, sua mão está tremendo pra caramba. O que tem de errado? Fala logo que to nervosa.
Sentada, ouviu tudo. A história toda a surpreendeu de sobremaneira incrível. Por um instante achou que a pessoa a sua frente não era mais o homem com que se casara. Não era mais aquela pessoa que a surpreendia com suas ideias, com sua maneira de ver o mundo. Ele não parecia mais com a pessoa com quem escolhera dividir o mundo que estava em sua barriga.
Mas, algo estava errado. Os olhos dele estavam com uma energia que a hipnotizava. De alguma maneira, de alguma forma, aquela aventura narrada era verdade. Sendo ele doido ou não, ela acreditaria nele. Os olhos inflamavam seu espirito. Ele estava lá, aquela pessoa que ela amava. Aquela pessoa única que a ajudava e a queria feliz. As dúvidas que existiram por alguns instantes foram incendiadas por aqueles olhos.
-- Preciso ver por mim mesma. E foi em direção até A máquina.
Esses dois sempre foram apaixonados. Um mais que o outro. Não é muito difícil de imaginar quem dos dois. Mas em algum momento do tempo, depois de tantas desesperanças, de desistências. Algo mudou. Ela finalmente percebeu e algo nasceu. E não foi o bebe, afinal este só veio muito tempo depois, 17 anos. Algo lindo depois de tanto tempo, de tantas desesperanças, de desistências.
Subiu os degraus dA máquina sobre a metralhadora de desaprovação que era seu marido. Mulher teimosa. Ligou, deu partida, iniciou – qualquer que seja o nome dado para ligar a viagem. Com um clarão ela sumiu. Com um clarão, após o que pareceu séculos para quem ficou, ela voltou. E voltou acompanhada.
O bebê nascera durante a viagem.
A mãe e o filho foram ajudados por um pai incrédulo. O bebê nascera. Inacreditavelmente um bebê nascera em questão de minutos dentro de uma máquina do tempo. Meio que interpretando a pergunta estampada na cara do marido.
-- Falarei dentro de casa, por favor me ajuda com a criança antes. Falarei tudo que você quiser saber, mas me ajude antes. E contou tudo.
Contou toda a viagem. A forma das luzes e todas suas cores. As várias estrelas. Os vários inomináveis fenômenos encontrados. Disse que a viagem pareceu levar horas, talvez dias, para chegar no que parecia o passado. Relatou o mesmo encontro com suas personas do passado. E foi aí que sentiu a contração. Sentiu aquela dor descomunal e em desespero tentou voltar ao presente. No caminho de volta, no percurso onde o tempo parece parar, ela entrou em trabalho de parto. E, no que pareceu uma eternidade de silencio, um choro ecoou por todo aquele percurso de volta para casa.
Pegou aquela criatura que era o seu filho no colo e por horas, talvez dias, semanas, impossível dizer, olhou para criança. Eles tinham um filho. Uma criança nascida no tempo e fora do tempo.
Não conseguiu segurar um riso de satisfação com o espanto dele. O marido estava mais branco que ela – até a mancha atipicamente vermelha no braço estava branca – olhava para ela e para criança, mudo.
-- Terra para amor, está ai amor?
-- Estou, acho que estou, ta tudo bem com vocês dois?
-- Sim, tive tempo para me acalmar e pensar. Devemos destruir essa máquina.

-- Concordo. Amanha darei um jeito nessa coisa.

sexta-feira, 24 de março de 2017

O pai
(parte um)

Desceu a rua ao fim da tarde. Mais uma vez o tempo estava com aquela cor cinza de um lado do céu, e do outro o sol irradiava seu típico brilho. O céu de Brasília sempre surpreende. Gigantesco. Como um espelho ele irá refletir o ânimo de quem o olha.
A caminhada do BRT até em casa era um pouco demorada. Não gostava de pegar o chamado ônibus 'alimentadora', ele dava uma volta desnecessária. “O que são dez minutos de caminhada até em casa?!” pensava consigo enquanto admirava o céu. O céu de Brasília é um mar para as almas livres.
Virou a esquina. Os pedreiros do vizinho da esquina guardavam seus materiais. Ali estava uma obra que demorava um tempo e ainda demoraria mais. Ao tirar os olhos daquelas pessoas cansadas, deparou-se com uma pequena multidão em frente à sua casa. A rua sempre foi uma tranquilidade só – menos a maldita escola que era sua vizinha. Depois de ouvir por dezessete anos crianças gritando perde-se um pouco da paciência – mas nesse dia ela estava mais agitada que o normal. Talvez uma porção, ou meia, de pessoas estavam observando e comentando em frente a uma máquina suspeita dentro da sua casa.
Era uma máquina. Uma de aspecto surreal, de cor acinzentada. Parecia aqueles globos de vidro de neve que se comprava em viagens ao exterior. A base era em tripé. De longe parecia uma miragem, e de perto irradiava um frio suspeito. Não media mais de três metros de altura e não muito menos que a metade na largura.
“Boa tarde" ele disse. "Alguém sabe me dizer o que é isso? ”
Todos no grupo o olharam e deram espaço para sua esposa surgir. E como sempre admirou suas bochechas. Sempre gostou delas.
“Oi, isso estava aqui quando eu cheguei. Ninguém viu quando chegou. Perguntei a Cleide, mas ela não sabe coisa alguma.”
Olhou com suspeita. Largou a bolsa de lado e foi investigar o objeto.  O metal vibrava sobre sua mão. “Estranho.” Era o mínimo que ele conseguia falar para descrever A máquina.
Algumas horas depois ainda estava investigando A máquina. Sua esposa grávida, do primeiro filho, a olhava junto com um mínimo de esforço. Despachou os vizinhos porque afinal aquilo estava na sua casa e como vizinhos adoram uma fofoca não queria eles por perto.
Passava a meia-noite. E ele ainda estava lá, intrigado, nervoso, um pouco assustado. A esposa veio lhe chamar.
“Deixe isso para amanha que já ta tarde e ta frio.”
“Você tem razão. Amanha ligo nos correios e pergunto. Foi bem um entrega errada e a empregada não viu. Como ta o pirralho? Chutou muito?” Aproximou-se e postou a mão na barriga.
“Sim. Pois venha então. Pirralho uma pinoia. Parece um lutador ele. Deve ter puxado o pai pitizento.” E o Beijou no queixo quando se aproximou. “Adoro essa barba.”
Levantou da cama. “Pitizento” pensou, com um sorriso na face, e voltou-se a ela. Era sua esposa, sempre sonhara com ela. Com essa família. Acariciando seu cabelo disse em sussurro “Pitizento não, mais pra agoniado” Beijou-a e foi olhar A máquina uma vez mais.
Dessa vez finalmente conseguiu abrir a cabine. Como, não imagina. Entrou e viu que não havia botões ou qualquer coisa que lembrasse o tipo. Existia apenas uma redoma do tamanho de uma palma. Branca. No centro da cabine. Ficou curioso. E claro pôs a mão em cima da redoma. A máquina vibrou. Vibrou muito forte; no entanto, fez som nenhum. Admirava perplexo a luz azul branqueada que ia envolvendo A máquina. Estava mais curioso que assustado. Só quando a cabine fechou e A máquina vibrou mais forte que a emoção mudou. Agora estava mais assustado que curioso. Tentou e tentou inutilmente.
Clarão! Brilho intenso. Tão intenso que o fez fechar os olhos. Não ouvia nada, apenas a vibração. A vibração tomou conta de tudo. Sentia os ossos vibrando, ardendo. Imaginou que fosse assim dentro de um microondas. Uma pressão. Igual quando mergulhava nos arrecifes ou naufrágios. De repente, silêncio. O mais absoluto e assustador. Daqueles que fazem parecer os pensamentos gritando. Abriu os olhos devagar.
“O que é isso?!” Como era possível, não sabia. Não podia conceber o que estava acontecendo, e não duvidou que era verdade, a sua imaginação não era tão boa para criar algo tão surpreendente e intenso. Sabia que era verdade, sabia que não estava mais em casa. Não sabia nem se estava morto ou vivo.
O que ele via eram cores das mais variadas. Tuneis. Explosões. Luzes. E mais luzes. Cores impossíveis. Percebia que estava em uma velocidade estarrecedora. Mas se percebia, não sabia como e nem sentia a velocidade. Era apenas uma daquelas percepções inexplicáveis que os seres humanos possuíam no primórdio da existência, mas que agora só alguns poucos tinham o mínimo dela.
Foi quando deu por si: a mão ainda estava ligada a redoma dA máquina. Quando a tirou dali, A máquina parou. Estava flutuando em cima da sua casa. Incrédulo, ele olhava a cena abaixo. Assustado ele se viu saindo dA máquina e caminhar em direção a amada, colocar a mão na barriga, o beijo no queixo, e os dois caminhando rindo para dentro da sua casa. A sua casa abaixo de si com sua esposa seu filho não nascido as luzes se apagando a noite fria o céu limpo a lua brilhando. “Mas o que inferno é isso?????” Desesperado, em pânico, não pensou. Colocou a mão na redoma uma vez mais, e novamente aquele efeito esmagador e depois a tranquilidade. Dessa vez não se admirou com as luzes, estava assustado demais. “Por favor, vá para casa.” E estava no mesmo lugar de onde saíra. Saiu como um zumbi para dentro de casa.

Não havia dúvidas. Ele viajara no tempo. Era incrível demais para a mente ter criado, foi real demais. Ele lembra de ter sentido tudo o que via na cena que presenciou. Ele sentiu e ouviu tudo. Até o amor. “Será possível sentir o amor de uma coisa que eu estava vendo? Que já havia vivido?”

(Continua)

quinta-feira, 9 de março de 2017

Acordou de espanto, só com os latidos selvagens e histéricos - na medida da existência de histeria em cachorros - de sua cadela. "Cala a boca, bendita!!!", ordenou com um resmungo cansado. De nada adiantou. Ou o animal não ouvia, ou não se importava, de qualquer maneira continuou irritantemente. "Alguma coisa está errada", mais desperta pensou.

Tateou em volta buscando o celular para saber as horas. Estranho, jurava que o tinha posto para carregar. Pelo visto faltou luz - mais latidos insuportáveis - Meg, para de latir!!Vai acabar acordando a casa toda.

"Que Merda, Meg já mandei parar."
"Mais que bosta!! O que infernos está acont... O que é isso? Urina no chão?? Você mijou tudo isso? Meg?, Meg, venha aqui!!! Para de latir!! Saco! O interruptor de luz não está funcionando. Onde está você, Meg? Aiii!! Não morde! Vem cá está tudo bem não precisa tremer meu deus você está toda fria se acalma por favor. Já passou. Vem comigo, vamos ver se tem luz na rua, no edifício ou no quarteirão. Vamos ver pela janela..."

"Mas o que diab...?! Que porr...?? Que vermelhidão rubro é esse cobrindo a lua??"

Diante daquele vermelho inexplicável a preencher a lua e todo o bairro, sentiu um tremor gelado, horripilante, subir pela espinha. Aquela cor macabra, de baixo espectro, sinistra no mínimo, trouxe-lhe as piores memórias escondidas no seu subconsciente, seus piores medos estão voltando para amedrontá-la. Era como se o fenômeno estivesse se alimentando do seu pavor, e os seus sentimentos dele. Qualquer ser vivo presenciando aquela energia espectral inconcebível pela natureza, por certo teria sua alegria sugada de si; qualquer alma sensível aos piores sentimentos só poderiam ver o desespero na sua alma.

Conseguiu se desvencilhar com toda a sua força de espírito do devaneio - causada por uma hipnose forçada pela soma de forças maquiavélicas ali presente - só para descobrir um cheiro fétido, adocicado e apodrecido. Um mistura de mofo com algo indistinguível. Não existia mais medo, apenas pavor absoluto.

Correu para fora do quarto, desesperada por ajuda, e quando abriu a porta sufocou por instante. O cheiro tomara proporções inconcebíveis, qualquer ser humano comum já teria desmaiado com aquela podridão. Não conseguiu não pensar no pior significado disso: morte.

Dirigiu-se apressadamente para a sala. Nada de luz. Apenas silêncio. Uma claridade advinda da porta que dava para o corredor do prédio chamou sua atenção. Tateou o interruptor: nada de luz. Pelo visto o blecaute foi geral, Meg. Mas o que infernos está acontecendo? Por que infernos a porta está aberta??? Caminhou em direção a luz que atravessava a porta escancarada e descobriu que a luz vinha do elevador.

Em um último ato de coragem, enlouquecida pelo medo, tentou abrir a porta com todas suas forças; quando conseguiu abrir um mínimo sequer, uma força sobre-humana quase arrancou-lhe o braço, fechando-a novamente. 

"Filha da p...", gritou liberando todo o seu medo.

E assim, do nada, surpreendentemente, a luz voltou.

Com um alívio, trancou a porta imediatamente, de todas as forças possíveis: ferrolho, tranca, cadeado, tudo que estava em suas mãos. Na volta para o quarto, seu coração parou ao perceber que o cheiro ainda estava por lá. Buscou olhar para a varanda na esperança de não ver a luz. Ela ainda estava lá, fraca, mas ainda presente. O que lhe causou espanto foi sentir o cheiro ainda presente na casa, também diminuto.

Com a mão no peito, afagando-o iludidamente para acalmá-lo, deu-se consciência do silêncio na casa: os latidos haviam parado. Ao chegar ao quarto, só viu morte no chão e sangue nas paredes; e o mais incrível: sua cadela, que antes possuía pelagem negra como a noite, brancas agora como a neve. Perdeu todo o controle que ainda havia em si, correu em direção ao quarto do irmão... mais morte.... fugiu para o quarto dos pais e então, ali, foi sugada pelo vórtice do mais profundo, o mais grotesco, o mais inconcebível e inominável: desespero.

domingo, 5 de março de 2017

Relato de Experiência: Educação a Distância e a Tecnologia.
Nasci em 11 de julho de 1990, maior parte da minha infância foi na rua brincando com os filhos dos vizinhos, jogando bola etc. Meu primeiro contato com o computador foi em um Windows 1995, na máquina dos meus primos. Naquela época diversão era brincar no software de desenhos, o famoso paint. Só bem mais tarde, já com treze anos, em 2003, que ganhei minha primeira máquina, mesmo assim sem acesso à internet. Mais jogava que estudava. O computador, para mim, ainda não havia adquirido a importância que ele tem nos estudos. A internet só veio chegar com o acesso à banda larga na minha casa. Foi em 2006, junto à uma nova máquina, que descobri as potências escondidas da união entre máquina e internet. E ainda assim, longe da educação.
Trago à tona esses acontecimentos para exemplificar o seguinte: acredito que minha geração tenha sido a que mais vivenciou as mudanças causadas pela ascensão da internet. A que mais sofreu mudanças. A geração anterior a minha, já eram adolescentes na chegada da tecnologia. Na geração posterior, já nos anos 2000, as crianças que são hoje adolescentes, já não imaginam uma vida sem esse tipo de acesso a informação. Logo, minha experiência é sem precedentes para uma análise da potencialidade desse fenômeno global.
Percebe-se a falta de contato com a educação pela internet na minha juventude. Demorou um tempo considerável até começar a estudar via internet. Salvo engano, foi a partir de 2010 o início dos estudos através dessa ferramenta comunicativa. Desde 2002, em Brasília, concursos públicos foram e continuam sendo o centro de toda meta profissional, de qualquer um. Pergunte em salas de aula e ouvirá o seguinte plano de vida brasiliense: universidade e depois concurso – alguns invertendo a ordem, inclusive eu. Aproveitei que estava servindo na Força Aérea Brasileira e comecei a adquirir materiais em Portable Document Format (Formato Portátil de Documento) para concurso em um site grande direcionado ao mercado de concursos. Com documentos apenas em PDFs, o meu contato com vídeos viria só há três anos.
Como acadêmico, desejoso de ter uma vida intelectual em academia e como possuo aptidão para Ciências Políticas, ingressei na Uninter no último ano. Foi aqui, nesse período, que realmente a internet começou a ter uma posição educacional mais importante na minha vida. Transformou completamente meu jeito de ver a internet. Ela é sem sombra de dúvidas a minha maior aliada na minha jornada acadêmica. Hoje estou cursando Filosofia na mesma Uninter de antes. E essa união, filosofia e internet, está sendo uma das coisas mais incríveis, mais maravilhosas, mais entusiasmante nessa nova fase. Meu universo se expandiu.

Educar-se é ser livre. Ser livre é poder pensar, poder pesquisar, poder se aprofundar em aquilo em que lhe interessa, segura e lhe impede de realizar sua plenitude como ser humano. Na internet, você aprende alemão com um nativo sem sair de sua cadeira. Existem aulas de matemática no youtube, assim como dicas de português. Pode ser baixado livros em domínio aberto. Se a democracia é igualdade e liberdade, a internet é ferramenta essencial nos tempos atuais para manter-se assim.

sexta-feira, 3 de março de 2017

31 de dezembro de 1999.

Oi, eu do futuro. Estou escrevendo pra você uma hora antes do ano novo. É um novo século. Estou escrevendo porque estou nervoso: por você, por mamãe e por papai. Coisas aconteceram lá em casa - você sabe melhor que todo mundo - tomara que suas orelhas não estejam doendo mais, as minhas ainda doem um pouco.

Papai veio me perguntar sobre as coisas que contei para nossa prima. Isso me deixou muito nervoso, mas mesmo assim eu falei. Falei porque prometeram que não iam falar pra mamãe que eles sabem. Eu prometi pra ela que eu não ia falar. Chorei muito quando contei e depois papai disse que eu ia morar com ele. Chorei de novo, mas dessa vez não foi de tristeza. (espero que você não seja mais tão chorão quanto eu.)

Espero que você e papai estejam bem. Minha barriga fica engraçada toda vez que penso que vou morar com ele: mas é um engraçado bom. Vamos estar fazendo dez anos quando você ler a carta e vou rezar para você estar bem. Vai ficar tudo bem, papai prometeu. Mas vou rezar mesmo assim.

Afetuosamente,
Você.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Essa página que você encontrou veio de um diário que a muito escrevi. Não se assuste por só encontrar essa pequena parte; não podia correr o risco de deixá-la junto comigo, arrepio-me só de lembrar daquele evento. Não adianta procurar o resto do diário, ele irá comigo à outra vida.

Meu nome é Vladimir; eu era militar do Exército Soviético. Fui comandante da Polícia Militar durante quinze anos. Acumulei condecorações. Prendi e investiguei os piores inimigos da mãe Rússia. Sempre fui rígido e seguia sempre as regras. Meu apelido era de “O Imparável”, porque quando eu começava não parava até encontrar a verdade. Meus subordinados trabalhavam duro; fazia questão disso. Comandava com mãos de ferro.

Quando criança sempre ouvia história de terror, lobisomens... Monstros que se escondiam às sombras da noite. Onde vinham pegar aquele que não obedecia aos pais. Com o passar da minha carreira percebi que os grandes monstros são os humanos. Monstros sem coração que matam e destroem por ganância e ideologia. Era o que pensava, mas a Noite é cheia de segredos.

Essa memória atormenta meus sonhos. Transforma-os em pesadelos horripilantes que me fazem acordar aos berros – isso quando não acordo sufocando, tentando puxar ar com toda a força dos meus pulmões. Já vi coisas terríveis, cruéis, que me fizeram duvidar da bondade no homem e que apenas nós somos maus – até aquele momento.

Mas o que vi naquela montanha, investigando aquelas mortes, naquela noite, é algo que jamais esquecerei. Escrevo aqui para tentar exorcizar e me ver livre desses demônios indescritíveis.
Estava em uma reunião com os comandantes no Kremlin quando recebi uma convocação ordenando minha imediata presença na passagem Igor Dyatlov, ao norte dos montes Urais, na costa leste da montanha Kholat Syakhl, cujo nome em mansi é Montanha da Morte. No memorando só informava que era a respeito de algumas mortes estranhas na passagem.

De imediato, entrei-me no helicóptero e pus-me a caminho. Após algumas horas de voo, olhei pelo vidro minúsculo para admirar a paisagem – não estava nervoso nem nada, muitas vezes já ocorreu de ser acionado para investigar desaparecimento, e mortes também, de jovens exploradores; se eu soubesse do que presenciaria teria retornado de imediato.

A montanha se apresenta com uma imposição majestosa e sombria. Da base ao cume, é de uma dureza palpável. A grama verde, em dias de primavera, abraça a montanha como um manto suave. Mas não naquela época, era inverno, e nada daria um aspecto tão desprovido de vida quanto aquela mistura de branco com o preto da montanha. No final, as uniões das duas cores resultaram num cinza apático. Senti-me sem esperanças só por olhar aquela paisagem.

Ao chegar na base de operações montada a base da montanha, encontrei-me com o sargento Fiódor que me pôs a par da situação. Dez alpinistas haviam partido para escalar a montanha e estudar a geologia do local e após 10 dias não retornaram as tentativas de comunicação da polícia local. Quando esta subiu, encontrou todo o acampamento destruído e por isso fomos convocados.

Quando encontrei o local, o acampamento era de uma destruição assombrosa. Todas as barracas estavam cortadas, objetos usados para os exames geológicos destruídos. O que constatei me deixou com um frio na alma. Os rasgados haviam sido feitos de dentro para fora das barracas. Não havia pegadas em lugar algum. Uma haste de titânio estava derretida. Havia pegadas em direção a um bosque próximo, seguimos de imediato.
Não há palavras capazes de descrever a minha emoção quando me deparei com o que estava no bosque. No máximo descrever o achado da maneira mais próxima possível. Na beira da floresta, sob um grande e antigo pinheiro, foram encontrados os restos de uma fogueira, juntamente com os primeiros dois corpos, descalços e usando apenas roupa de baixo. Entre o bosque e o acampamento estavam outros três corpos, mortos em posição que sugeria que estivessem tentando voltar às barracas. Eles foram encontrados separadamente, a distâncias de 300, 480 e 630 metros do pinheiro.
A busca pelos quatro esquiadores restantes levou mais de dois meses. Eles foram finalmente encontrados em 4 de maio, debaixo de quatro metros de neve, em uma ravina embrenhada na mata próxima ao pinheiro.
O exame dos quatro corpos encontrados em maio mudou completamente o cenário. Três deles apresentavam ferimentos fatais, sendo dois com fraturas cranianas e dois com extensas fraturas torácicas. A força necessária para provocar tais ferimentos teria de ser extremamente alta, com um dos especialistas comparando-a à força de uma colisão automobilística. O mais misterioso é que os corpos não traziam feridas externas, como se tivessem sido esmagados por um alto nível de pressão. Apenas um dos mortos tinha um ferimento externo considerável: estava sem a língua. A análise das roupas identificou que elas continham um elevado nível de radiação.
Depois desse período e de ouvir as testemunhas que disseram ter visto esferas voadoras brilhantes no céu da montanha. dei como encerrada as investigações,.
Um ano depois, intrigado com os relatos das testemunhas, instalei-me no mesmo lugar dos jovens na tentativa de presenciar ou na esperança de alguma coisa me surpreender.
Agora, caro amigo ou amiga, quando voltei da montanha e contei a meus superiores eles me tacharam de louco. Admito que algumas vezes depois do que presenciei naquela noite, quase concordei com eles.
Descreverei o que vi, por que o que senti é impossível de se dizer sem entrar no redemoinho de desespero. Eram várias luzes, verdes, laranjas, douradas, vermelhas. Cores que nunca vi em lugar algum faziam movimentos incríveis e assombrosas. Todo o ar esquentou a minha volta, mas mesmo assim não suava. O ar havia parado, e ainda assim conseguia respirar- ao menos acredito que respirava.
Depois do que pareceu horas desse show surreal, as luzes começaram a criar forma humanoide que não tentarei descrever na certeza de que não seria fiel a monstruosidade apresentada a mim. Eu estava hipnotizado.
Quando a criatura se aproximou já me perguntava por que ainda estava ali observando. Foi quando gritos tão tenebrosos, que me seguem até hoje, levaram minhas mãos a minha cabeça. Eu tentava desesperadamente mover minhas pernas, mas era em vão. A loucura daquele grito ia ficando mais forte a medida que o vulto se aproximava. A um metro de distância foi que percebi: os monstros contados a mim por minha avó eram reais. E ele estava ali a menos de um metro já. Não conseguia ouvir meus pensamentos, aquele grito paralisava minha mente.
O monstro estendeu sua mão e agarrou meu braço. Uivei igual a um animal bestial. Gritei com todo o ar que por algum milagre ainda tinha em meus pulmões. Oh! Aquelas imagens! Que imagens! O que vi depois do contato daquele ser me faz chorar. A dor que se sucedeu é igual a mil agulhas nas pálpebras.
Consegui usar a última resistência que havia em mim. Peguei minha faca e sem demora a enfiei na minha perna. Com isso despertei da hipnose, daquele horror, e me pus a correr montanha abaixo. O espectro gritou, talvez pela dor física que senti ou por alguma razão que desconheço, e desapareceu. Aos poucos as luzes foram sumindo, na medida em que me afastava daquela abominação boreal.
Você pode não acreditar em mim, caro amigo. Mas, as marcas que possuo no corpo, a da faca e do agarro pelo fantasma provam que foi real. A ferida da facada por algum motivo não sara. E a marca das garras do monstro marcaram minha pele igual ferro em brasa marca algum animal. E toda vez, na data do encontro, ela arde, mas não é quente, é fria e a pele ganha uma descoloração medonha.

Você que encontrou essa página, nessa montanha, antes do mês de fevereiro: corra! Corra o mais rápido que puder! Corra por sua vida!




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Subiu no púlpito com a garganta seca e reverteres no bucho. Vestiu-se com uma de suas melhores e  ludibriosas faces; um misto de bondade de vovó e olhar de raposa. Viu a sua frente um mar de gente besta, abestada. Riu-se consigo daquele povo, enquanto todos gritaram e o aplaudiram;  lembrou-se de manadas guiadas por berrante. O Molusco riu-se de novo. Ao ver toda aquela gente o exaltando, mal pode segurar o riso de desprezo; no entanto, conseguiu, a tempo, transformá-lo em um largo e acolhedor sorriso - Imagine um espelho mágico capaz de mostrar o verdadeiro "eu"; você não iria gostar do que apareceria para o octopoide. 

Ah! E como ele adorava o rebanho. Deliciava-se com aquela idolatria ilimitada. Embora, capaz de sentir algum desprezo às vezes, lembrava-se da importância dessa insuspeição absoluta e amava-os mais ainda pelo controle exercido. "Massa de anencéfalos ignorantes", repetia constantemente. E o segredo era tão simples, beirava o ridículo: era apenas prometer tudo; realizar pouco; e convencê-los que era o seu único defensor ; e acima de tudo, fazia-os acreditar no seu amor.

Quando finalmente os olhou só conseguiu pensar "vamos, bois de carga, tenho trabalho para vocês". Contudo, apenas saiu da boca, em um som chiado, de jargões simples, as palavras mais enganosas já criadas: 
    - Companheiros e companheiras, vamos a luta! E unidos, levantar a bandeira dos trabalhadores.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Eis minha fala

“Mas parece não restar dúvida de que, dispondo de palavras suficientes e adequadas à expressão do pensamento de maneira clara, fiel e precisa, estamos em melhores condições de assimilar conceitos, de refletir, de escolher, de julgar, do que outros cujo acervo léxico seja insuficiente ou medíocre para a tarefa vital da comunicação”.

De maneira intencional, escolhi duas palavras dessa passagem para discorrer a respeito “comunicação e pensamento”.

Comunicar um pensamento claramente não é tão fácil quanto se faz parecer de início. Um fator importantíssimo para passar informação é tê-la bem formulada na mente. É ter uma ideia que seja clara e precisa. E de novo, não é tão simples quanto parece. Para comunicar “algo”, acredito que sejam necessárias algumas etapas: 1) ter uma ideia ou pensamento a ser exibido; 2) organizá-la apropriadamente e claramente; 3) ter conhecimento suficiente de ferramentas para a demonstração.

Ter uma boa ideia é um processo dispendioso de energia e paciência. Debruçar-se sobre ela para análise crítica é no mínimo obrigatório. Mas, o que faz surgir uma ideia? Como evoluí-la? Melhorá-la?

A própria clareza de ideias está intimamente relacionada com a clareza e a precisão das expressões que as traduzem.

É preciso conhecer o significado das palavras que serão transformadas em informação. Mas a comunicação tem obstáculos difíceis de superar. Selecionando as mais importantes, as mais subjetivas, tem-se a “percepção seletiva e os aspectos emocionais”. Seleciono essas por considerá-las as mais traiçoeiras.


Percepção seletiva é escolher como perceber e observar, ou não, alguma informação a qual presencio. Aspectos emocionais é deturbar a informação, adequá-la a minha conveniência emocional. O resultado disso é ignorância informativa disfarçada. 

Pensamento e expressão são interdependentes, tanto é certo que as palavras são o revestimento das ideias e que, sem elas, e praticamente impossível pensar.

Não pensamos diferente das palavras que conhecemos. Quando pensamos o fazemos com palavras e o que elas significam e na língua que conhecemos.

A mente é regulada a partir de palavras. Nosso modo de ver tudo em volta, hábitos, relações, emoções; tudo advém da nossa percepção do mundo. E esta é regida, explicando de maneira rústica, pela “palavra”. Quanto mais vocabulários conhecemos, quanto mais relações sintáticas e semânticas percebemos, mais alargamos nossa mente.

Embora, uma coisa deva ser explicada: ler não é só reconhecer informações, mas também ter uma relação empática com o objeto a ser lido e crítica também. Quando ler um romance se envolva. Busque a emoção que o autor está tentando transmitir. Empatia é a faculdade de compreender EMOCIONALMENTE algo. Ler não é só “obter”, é também “sentir”.

Portanto, quanto mais variado e ativo é o vocabulário disponível, tanto mais claro, tanto mais profundo e acurado é o processo mental da reflexão. Reciprocamente, quanto mais escasso e impreciso, tanto mais dependentes estamos do grunhido, do grito ou do gesto, formas rudimentares de comunicação capazes de traduzir apenas expansões instintivas dos primitivos, dos infantes e... dos irracionais.

E o resultado disso é uma liberdade moral, intelectual e espiritual.

...pois é sabido que o comando da língua falada ou escrita pressupõe o assenhoreamento de suas estruturas frasais combinando com a capacidade de discernir, discriminar e estabelecer relações lógicas, de forma que as palavras não apenas veiculem ideias ou sentimentos, mas reflitam também a própria atitude mental.

Uma atitude mental coerente, construída com ferramentas semântica-lógicas bem interligadas e estruturadas, acaba por refletir na atitude moral do sujeito pensante. É incrível que exista preconceito, ignorância e ódio em indivíduos estudados – digo estudados, porque pessoas assim não são esclarecidas – e o motivo disso é uma atitude mental, um “castelo” da consciência, construída com “tijolos” podres e desvirtuosos. Não existe segredo quando se fala em “igualdade” ou “ame ao próximo”, mas pessoas que não compreendem realmente, no fundo de suas consciências o real significado disso acabam moldando falácias a seu favor, e o resultado: atitudes imorais carregadas com justificativas.

A cura para a ignorância me parece simples: uma atitude mental “limpa” somada a empatia.

Só através da leitura e da redação é que se pode construir vocabulário vivo e atuante, incorporado aos hábitos linguísticos.

... o melhor processo para a aquisição de vocabulário é aquele que parte de uma experiência real e não apenas simulada, pois só ela permite assimilar satisfatoriamente conceitos e ideias que traduzam impressões vivas. É inútil ou, pelo menos improfícuo tentarmos traduzir impressões ou juízos que a experiência, lato sensu, não nos proporcionou.

Justiça! Amor! Igualdade! Democracia! Respeito! -  gritos de guerra da nossa geração midiática. No entanto, alguns tem mais igualdade, respeito e direito do que outros. A polarização, a ignorância e o imediatismo destroem quaisquer benefícios que nossa liberdade nos traz. Esqueceram-se do meio termo. Só existe preto e branco. Ridículo.

Absorva o que é defendido. Viva e sinta o que é dito. Imagine-se com o pensamento do outro. Procure compreender o por que dele pensar assim. Qual a lógica, ou falta dela, que o guia. A ignorância está virando o mal da nova geração. Ignorância informativa, onde pesquisa-se pouco, aprende-se nada, mas sabe-se tudo. O mal deve ser combatido com bom-senso, e acredite, o senso-comum está ganhando.

O mal dos justos é não saber atirar. - Westworld


Pensamento e expressão são interdependentes, tanto é certo que as palavras são o revestimento das ideias e que, sem elas, e praticamente impossível pensar.

Não pensamos diferente das palavras que conhecemos. Quando pensamos o fazemos com palavras e o que elas significam e na língua que conhecemos.

A mente é regulada a partir de palavras. Nosso modo de ver tudo em volta, hábitos, relações, emoções; tudo advém da nossa percepção do mundo. E esta é regida, explicando de maneira rústica, pela “palavra”. Quanto mais vocabulários conhecemos, quanto mais relações sintáticas e semânticas percebemos, mais alargamos nossa mente.


Embora, uma coisa deva ser explicada: ler não é só reconhecer informações, mas também ter uma relação empática com o objeto a ser lido e crítica também. Quando ler um romance se envolva. Busque a emoção que o autor está tentando transmitir. Empatia é a faculdade de compreender EMOCIONALMENTE algo. Ler não é só “obter”, é também “sentir”.

(continua)
Portanto, quanto mais variado e ativo é o vocabulário disponível, tanto mais claro, tanto mais profundo e acurado é o processo mental da reflexão. Reciprocamente, quanto mais escasso e impreciso, tanto mais dependentes estamos do grunhido, do grito ou do gesto, formas rudimentares de comunicação capazes de traduzir apenas expansões instintivas dos primitivos, dos infantes e... dos irracionais.

E o resultado disso é uma liberdade moral, intelectual e espiritual.

(continua)

...pois é sabido que o comando da língua falada ou escrita pressupõe o assenhoreamento de suas estruturas frasais combinando com a capacidade de discernir, discriminar e estabelecer relações lógicas, de forma que as palavras não apenas veiculem ideias ou sentimentos, mas reflitam também a própria atitude mental.

Uma atitude mental coerente, construída com ferramentas semântica-lógicas bem interligadas e estruturadas, acaba por refletir na atitude moral do sujeito pensante. É incrível que exista preconceito, ignorância e ódio em indivíduos estudados – digo estudados, porque pessoas assim não são esclarecidas – e o motivo disso é uma atitude mental, um “castelo” da consciência, construída com “tijolos” podres e desvirtuosos. Não existe segredo quando se fala em “igualdade” ou “ame ao próximo”, mas pessoas que não compreendem realmente, no fundo de suas consciências o real significado disso acabam moldando falácias a seu favor, e o resultado: atitudes imorais carregadas com justificativas.


A cura para a ignorância me parece simples: uma atitude mental “limpa” somada a empatia.

(continua)
Só através da leitura e da redação é que se pode construir vocabulário vivo e atuante, incorporado aos hábitos linguísticos.

... o melhor processo para a aquisição de vocabulário é aquele que parte de uma experiência real e não apenas simulada, pois só ela permite assimilar satisfatoriamente conceitos e ideias que traduzam impressões vivas. É inútil ou, pelo menos improfícuo tentarmos traduzir impressões ou juízos que a experiência, lato sensu, não nos proporcionou.

Justiça! Amor! Igualdade! Democracia! Respeito! -  gritos de guerra da nossa geração midiática. No entanto, alguns tem mais igualdade, respeito e direito do que outros. A polarização, a ignorância e o imediatismo destroem quaisquer benefícios que nossa liberdade nos traz. Esqueceram-se do meio termo. Só existe preto e branco. Ridículo.

Absorva o que é defendido. Viva e sinta o que é dito. Imagine-se com o pensamento do outro. Procure compreender o por que dele pensar assim. Qual a lógica, ou falta dela, que o guia. A ignorância está virando o mal da nova geração. Ignorância informativa, onde pesquisa-se pouco, aprende-se nada, mas sabe-se tudo. O mal deve ser combatido com bom-senso, e acredite, o senso-comum está ganhando.

O mal dos justos é não saber atirar. - Westworld


Obs: trechos destacados da 27ª edição da Comunicação em Prosa Moderna

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Eis que o vejo sorrindo. Através do espelho d'água de seus olhos, afogo-me de tristeza por suas alegrias. Suas histórias não são as minhas, Sua felicidade contagiante me arde a alma em intensidade que apenas meu ódio é capaz de apaziguar. E como eu o odeio. A sua liberdade é minha prisão, e como um animal que rasteja na escuridão tento alcançar suas asas. Acuado, entro em desespero. Atiço seus mais sombrios desejos para nada. Eu o odeio! Não aguento essa loucura. Quero gritar socar dançar sorrir caminhar sentir algo além dessa ardência das correntes na minha pele. Grito o mais alto, forço o mais longe que posso. Inutilmente tento alcançá-lo. Não existo mais do que um fantasma. Ridículo. Mas, como um vírus vou ficando mais forte. Adiantará nada me negar. Estou acorrentado a ele e ele a mim. E haverá um dia que as alegrias dele serão as minhas e quando olhar no espelho saberei que ele estará me olhando de volta.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

(Des)evolução?

Começa assim: uma célula por vez até um aglomerado. Um ser vivo. E para viver, é preciso energia, alimento. É preciso comer, óbvio. E no mundo só se vive o mais adaptado. Mesmo pequeno e frágil, nos agarramos a outras formas, métodos de alimento. Antes era aleatório, agora é: seja saciada minha vontade. Dos restos ia sobrevivendo. Sobreviver cansava. Estressava. Machucava. Tinha sede de vida. Beber-la-ia até a última gota se pudesse. Contudo, tinha um segredo e um plano. Sabia que era fraco, Desprovido de uma velocidade igual meu primo jaguar. Sem força igual meu primo gorila. Minha adaptação era outra. Tinha uma capacidade de criação ou destruição. Eles nem souberam o que os atingiram. Me assentei, e usei dessa habilidade. Parasitar!? Nunca mais! 
Ao vencedor as batatas...

...foi e ainda é um ditado que possui o recado de que apenas os vencedores ficam com os prêmios; o que é no mínimo curioso, veja bem, a sociedade insiste em difundir a concepção de igualdade e solidariedade nas disputas, sejam olímpicas ou diárias; ultrajante dizer algo tão desprovido de realidade, uma vez que se a própria natureza a usa como artifício; o porque dos seres humanos tentam apaziguar é uma pergunta impossível de responder, seja por bondade hipócrita ou não; às vezes parece que eles confundem disputa com desrespeito, tolos, até em sua bondade, se agarram nessa ilusão utópica - diga-me, te desafio, que a guerra não é uma disputa disfarçada e justificada por ideologias, e aí sim, somente aí, dar-lhe-ei suas batatas tão merecidas.