Essa página que você
encontrou veio de um diário que a muito escrevi. Não se assuste por só
encontrar essa pequena parte; não podia correr o risco de deixá-la junto
comigo, arrepio-me só de lembrar daquele evento. Não adianta procurar o resto
do diário, ele irá comigo à outra vida.
Meu nome é Vladimir; eu
era militar do Exército Soviético. Fui comandante da Polícia Militar durante
quinze anos. Acumulei condecorações. Prendi e investiguei os piores inimigos da
mãe Rússia. Sempre fui rígido e seguia sempre as regras. Meu apelido era de “O
Imparável”, porque quando eu começava não parava até encontrar a verdade. Meus subordinados
trabalhavam duro; fazia questão disso. Comandava com mãos de ferro.
Quando criança sempre
ouvia história de terror, lobisomens... Monstros que se escondiam às sombras da
noite. Onde vinham pegar aquele que não obedecia aos pais. Com o passar da
minha carreira percebi que os grandes monstros são os humanos. Monstros sem
coração que matam e destroem por ganância e ideologia. Era o que pensava, mas a
Noite é cheia de segredos.
Essa memória
atormenta meus sonhos. Transforma-os em pesadelos horripilantes que me fazem
acordar aos berros – isso quando não acordo sufocando, tentando puxar ar com toda
a força dos meus pulmões. Já vi coisas terríveis, cruéis, que me fizeram
duvidar da bondade no homem e que apenas nós somos maus – até aquele momento.
Mas o que vi naquela
montanha, investigando aquelas mortes, naquela noite, é algo que jamais
esquecerei. Escrevo aqui para tentar exorcizar e me ver livre desses demônios indescritíveis.
Estava em uma reunião
com os comandantes no Kremlin quando recebi uma convocação ordenando minha
imediata presença na passagem Igor Dyatlov, ao norte dos montes Urais, na costa
leste da montanha Kholat Syakhl, cujo nome em mansi é Montanha da Morte.
No memorando só informava que era a respeito de algumas mortes estranhas na
passagem.
De imediato,
entrei-me no helicóptero e pus-me a caminho. Após algumas horas de voo, olhei
pelo vidro minúsculo para admirar a paisagem – não estava nervoso nem nada,
muitas vezes já ocorreu de ser acionado para investigar desaparecimento, e
mortes também, de jovens exploradores; se eu soubesse do que presenciaria teria
retornado de imediato.
A montanha se
apresenta com uma imposição majestosa e sombria. Da base ao cume, é de uma
dureza palpável. A grama verde, em dias de primavera, abraça a montanha como um
manto suave. Mas não naquela época, era inverno, e nada daria um aspecto tão
desprovido de vida quanto aquela mistura de branco com o preto da montanha. No
final, as uniões das duas cores resultaram num cinza apático. Senti-me sem
esperanças só por olhar aquela paisagem.
Ao chegar na base de
operações montada a base da montanha, encontrei-me com o sargento Fiódor que me
pôs a par da situação. Dez alpinistas haviam partido para escalar a montanha e
estudar a geologia do local e após 10 dias não retornaram as tentativas de
comunicação da polícia local. Quando esta subiu, encontrou todo o acampamento destruído
e por isso fomos convocados.
Quando encontrei o
local, o acampamento era de uma destruição assombrosa. Todas as barracas
estavam cortadas, objetos usados para os exames geológicos destruídos. O que
constatei me deixou com um frio na alma. Os rasgados haviam sido feitos de
dentro para fora das barracas. Não havia pegadas em lugar algum. Uma haste de titânio
estava derretida. Havia pegadas em direção a um bosque próximo, seguimos de
imediato.
Não há
palavras capazes de descrever a minha emoção quando me deparei com o que estava
no bosque. No máximo descrever o achado da maneira mais próxima possível. Na
beira da floresta, sob um grande e antigo pinheiro, foram encontrados os restos de uma fogueira, juntamente com os primeiros dois corpos, descalços e
usando apenas roupa de baixo. Entre o bosque e o acampamento estavam outros
três corpos, mortos em posição que sugeria que estivessem tentando voltar às
barracas. Eles foram encontrados separadamente, a distâncias de 300, 480 e 630
metros do pinheiro.
A busca pelos
quatro esquiadores restantes levou mais de dois meses. Eles foram finalmente
encontrados em 4 de maio, debaixo de quatro metros de neve, em uma ravina embrenhada
na mata próxima ao pinheiro.
O exame
dos quatro corpos encontrados em maio mudou completamente o cenário. Três deles
apresentavam ferimentos fatais, sendo dois com fraturas cranianas e dois com
extensas fraturas torácicas. A força necessária para provocar tais ferimentos
teria de ser extremamente alta, com um dos especialistas comparando-a à força
de uma colisão automobilística. O mais misterioso é que os corpos não traziam
feridas externas, como se tivessem sido esmagados por um alto nível de pressão.
Apenas um dos mortos tinha um ferimento externo considerável: estava sem a
língua. A análise das roupas identificou que elas continham um elevado nível de
radiação.
Depois
desse período e de ouvir as testemunhas que disseram ter visto esferas voadoras brilhantes no céu da montanha.
dei como encerrada as investigações,.
Um ano depois, intrigado com
os relatos das testemunhas, instalei-me no mesmo lugar dos jovens na tentativa de
presenciar ou na esperança de alguma coisa me surpreender.
Agora, caro amigo ou amiga,
quando voltei da montanha e contei a meus superiores eles me tacharam de louco.
Admito que algumas vezes depois do que presenciei naquela noite, quase
concordei com eles.
Descreverei o que vi, por que
o que senti é impossível de se dizer sem entrar no redemoinho de desespero.
Eram várias luzes, verdes, laranjas, douradas, vermelhas. Cores que nunca vi em
lugar algum faziam movimentos incríveis e assombrosas. Todo o ar esquentou a
minha volta, mas mesmo assim não suava. O ar havia parado, e ainda assim
conseguia respirar- ao menos acredito que respirava.
Depois do que pareceu horas
desse show surreal, as luzes começaram a criar forma humanoide que não tentarei
descrever na certeza de que não seria fiel a monstruosidade apresentada a mim.
Eu estava hipnotizado.
Quando a criatura se
aproximou já me perguntava por que ainda estava ali observando. Foi quando
gritos tão tenebrosos, que me seguem até hoje, levaram minhas mãos a minha
cabeça. Eu tentava desesperadamente mover minhas pernas, mas era em vão. A
loucura daquele grito ia ficando mais forte a medida que o vulto se aproximava.
A um metro de distância foi que percebi: os monstros contados a mim por minha
avó eram reais. E ele estava ali a menos de um metro já. Não conseguia ouvir
meus pensamentos, aquele grito paralisava minha mente.
O monstro estendeu sua mão e
agarrou meu braço. Uivei igual a um animal bestial. Gritei com todo o ar que
por algum milagre ainda tinha em meus pulmões. Oh! Aquelas imagens! Que
imagens! O que vi depois do contato daquele ser me faz chorar. A dor que se
sucedeu é igual a mil agulhas nas pálpebras.
Consegui usar a última resistência
que havia em mim. Peguei minha faca e sem demora a enfiei na minha perna. Com
isso despertei da hipnose, daquele horror, e me pus a correr montanha abaixo. O
espectro gritou, talvez pela dor física que senti ou por alguma razão que
desconheço, e desapareceu. Aos poucos as luzes foram sumindo, na medida em que
me afastava daquela abominação boreal.
Você pode não acreditar em
mim, caro amigo. Mas, as marcas que possuo no corpo, a da faca e do agarro pelo
fantasma provam que foi real. A ferida da facada por algum motivo não sara.
E a marca das garras do monstro marcaram minha pele igual ferro em brasa marca
algum animal. E toda vez, na data do encontro, ela arde, mas não é quente, é
fria e a pele ganha uma descoloração medonha.
Você que encontrou essa página, nessa montanha, antes do mês de fevereiro: corra! Corra o mais rápido que puder! Corra por sua vida!
Você que encontrou essa página, nessa montanha, antes do mês de fevereiro: corra! Corra o mais rápido que puder! Corra por sua vida!