domingo, 5 de abril de 2020

As últimas testemunhas, Svetlana Aleksiévitch

Por Lucian Freitas.

Um cachorro doente, de nome Cláudio, chega ao veterinário. Após alguns exames o parecer, Claudio será sacrificado. Sua dona pergunta ao doutor se ele sofrerá; no que ele responde que não, pois será o mais humanamente possível. E se o paciente, Claúdio, fosse uma criança, ainda seria humano o sacrifício?
Essa pequena história nos demonstra o questionamento do que seria uma atitude humana. A resposta anda de mãos dadas com a descoberta da essência do Ser Humano. Temos em alta a vida humana. Culturalmente é o mais importante tesouro. Aquele que deve ser protegido e honrado todos os dias da semana, de segunda a domingo, menos em meados do século 20, cujo período chamaremos de quarta-feira à tarde de um dia chuvoso.
Em algum momento da nossa história, um adulto, sempre eles, pegou seu banco, levou a praça, subiu e lá decretou: — somos os mais importantes de todos os seres vivos! Esse adulto, de nome Adalfo, frustrado, pequeno, metido a besta e conhecedor da profunda espiritualidade humana, investigador a nível superior de Sherlock Holmes, percebeu o segredo do sofrimento humano: a jew — saúde — os judeus.
Sagaz como toda pulga em pelo de Lobo, Adalfo, com muita luta, conseguiu companheiros para sua trajetória heroica e fundou um grupo de socorro, uma Liga da Justiça, o Partido Nazista. Todos seres perfeitos que não defecam e nem limpam o nariz após espirro em tempos de gripe. Eles acharam por bem levar a salvação a todos a sua volta. A Europa pedia socorro. Desculpem-me a ousadia de dizer que vocês foram enganados pelo Globalismo e revisionismo materialista-social.
Svetlana decidiu botar a prova esse revisionismo e saiu à procura de testemunhas que comprovassem o heroísmo alemão. Acabou por se encontrar com as pessoas que não foram à guerra, mães e filhos sobreviventes dessa luta completa e inteiramente carregada de motivação essencialista, ou seja, se corressem o bicho pegava e se ficassem o bicho comia.
Seus relatos alcançam além das memórias heroicas e verdades lindas e maravilhosas das salas de cinema. Essas memórias retratam o seco, o duro, o sujo, o terrível do que é ser o lado mais fraco desse cabo de guerra. Cada página do livro é um chute nas genitálias com uma bota de bico de aço
embebida em mertiolate. A vivência dessas crianças vendo suas mães, avós e avôs rebaixados a menos do que animais sem nome — porque animais de nome Cláudio são mais do que isso, são da família. Atualização de definição de humanidade realizada: humanos são animais com nomes bonitos.
As últimas testemunhas é os relatos desses sobreviventes. Cada narrativa, cada memória, simboliza o que há de pior no ser humano: achar-se no direito, desde que esse direito seja o que ele acha que é.
Seres humanos não deveriam ser definidos por sua Biologia, se assim fossemos, a definição seria de “pacotes fétidos de carne, merda e sangue”. Nem por sua Cultura, pois ela é apenas reflexo de algo mais importante. Nem como entidade superior, definição dada por uma força superior, se assim fossemos, o engenheiro genético deveria voltar ao primeiro semestre da graduação na aula de princípios fundamentais de não cometer merda a criar algum ser vivo.
Não! Nós somos as memórias, as histórias que contamos. Sendo assim, se a Memória é como o lago nascente da constituição humana, Svetlana é o canal que transporta histórias para a memória coletiva de toda a Humanidade. Somos memória, somos a história que une essas memórias, somos a história que contamos sobre nossa história.