quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Você está aberto(a)?

A Política é a arte da possibilidade. Essa definição, defendida por Otto von Bismarck, qualifica as nuances da política como transformação, a transfiguração de um objetivo. Como ninguém, ele elevou essa arte ao extremo para alcançar um objetivo: a unificação alemã. Dialogando entre interesses diversos, o conde manipulou os interesses a sua volta para sua finalidade suprema.

Não obstante, se Bismarck, com sua conceituação, estiver correto – e nada determina o contrário – pode-se definir possibilidade como articulação entre duas opções, afinal, não há escolha sem opção. Articular-se-ia em prol de um objetivo, e objetivos são sempre de interesse. Conclui-se que o sucesso para a articulação política, então, encontra-se na manipulação do interesse.

No século 21, as forças de interesse se confrontam na ágora moderna, a internet. No ciberespaço, encontra-se todo tipo de forças disputando a atenção do único ator que importa, os interesses do povo. Tal estrutura permite a manipulação de dados e do senso de realidade dos seus usuários. Como demonstrado no documentário Dilema das Redes, todos os esforços convergem para a permanência do usuário, por mais tempo possível, pelo reforço positivo.

O psicólogo Pavlov, em seu experimento com cachorros, comprovou que é possível ter uma reação fisiológico, e psíquica, quando estimulados por forças externas. O reforço positivo funciona como uma droga para o cérebro. Ao confirmar os gostos do usuário, unindo-se com programações comportamentais, indicando apenas conteúdos que os permitam ficar na plataforma, reafirmam-se preconceitos que muitas vezes não se confirmam quando em confronto com a realidade.

O resultado negativo se comprova quando não há possibilidades de comunicação, pois o locutor e o interlocutor estarão falando diferente sobre a mesma coisa: é o chamado ruído na comunicação. Em contraponto, o dialogo se apresenta como cura para a ignorância política ao boicotar a articulação imposta por terceiros. Ao se abrir à comunicação, os agentes políticos que importam, o povo, permitem o confronto de perspectivas. Isso causa um efeito transmutado da definição do Bismarck: as possibilidades, agora, não surgirão por interesses ditatoriais, mas da convergência de um senso de pertencimento social.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

É isto um Homem?

 

Resenha sobre uma pequena parte de um grande livro. Do capítulo nove, do livro a Ordem Mundial, de Kissinger, extrai-se essas particularidades empolgantes e intrigantes.

O fator Humano.

Desde a primeira revolução industrial, a relação entre as criações das imaginações do Homem e ele próprio mudaram a passos cada vez mais largos. A Filosofia há muito procura responder de qual essência se diz ao definir esse sujeito, esse agente transformador. Longe da resolução final da questão, poderíamos usar a definição apresentada pelo próprio Kissinger.

Rastrearam a evolução da sociedade por fatores que tinham sido “semeados na natureza humana”: a capacidade de raciocinar de cada indivíduo, uma aptidão poderosa, ainda que passível de erros, e seu inerente “amor-próprio”, de cuja interação “diferentes opiniões virão a ser formadas”; e a diversidade das capacidades humanas, da qual “resulta imediatamente a posse de diferentes graus e tipos de propriedade” e com elas uma “divisão da sociedade em diferentes interesses e partidos”. (KISSINGER, 2015)

A construção conceitual exposta extrai várias características que podem até não resumir e determinar a essência da Humanidade, mas explicita as suas características fundamentais: a capacidade intelectual, com um cérebro possuidor de mais neurônios do que estrelas na Via Láctea; o egoísmo próprio do Ser Humano, que, ao interagir com o Mundo, gera opiniões mutantes; a capacidade de adaptação transformadora, essa força motriz de transformação do espaço; e, por fim, os interesses. Cada característica exposta possui papel fundamental na vida política de uma sociedade. Toda relação é política, que surge pelo interesse, cujo objetivo surge do egoísmo.

A conclusão por essas características surgiu de um mundo diferente do atual. A realidade anterior não é mais a dada, essa atual, a presente a nossa volta. O filtro que antes era analógico, virou digital, a qual não aprendemos a lidar, pois a nossa consciência ainda se encontra programada no nível da realidade falida. Há, portanto, uma dissonância cognitiva, uma convulsão, não apenas cultural, mas também do entendimento do que é real.

Um novo curso se apresenta, com vantagens e desvantagens. Apesar disso, para liderar a transformação em direção a algo que não se identifica, nem temos consciência do que seja, nem nunca estivemos, precisamos entender o lugar em que nos encontramos para, assim, não projetarmos no futuro algo arraigado, familiarizado. Nesse caso, a chave para o sucesso é a Sabedoria.

Em que lugar entra a tecnologia do século 21? A força da internet é no factual, no real, nos valores já existentes, formulados pelo consenso e não pela Sabedoria. Todo o conhecimento, tanto histórico, quanto geográfico, até matemático, não é mais introspectivo. Nós não mais precisamos pensar, basta-nos acessar.

“A atitude mental apropriada para trilhar caminhos políticos solitários pode não parecer óbvia para os que anseiam por confirmação por parte de centenas, às vezes milhares, de amigos no Facebook”. (KISSINGER, 2015)

Trata-se, portanto, de uma atitude mental, e ela, meus amigos, pode ser moldada. Muitos, e o senso comum também, quando enviesado pelo bom senso, dividem o alcance da mente em três categorias: Informação, Conhecimento e Sabedoria. O foco do mundo da informação é ela mesma, a Informação. Banalizou-se a informação. Uma procura rápida já demonstra o que se deseja. Não há atitude mental, a pessoa, nós, perdemos a atividade, o ato de sentar e pensar introspectivamente. Não há processo evolutivo da atitude mental enquanto houver comodismo. O excesso empurra o Conhecimento, afastando ainda mais a Sabedoria.

Com o excesso e a alta facilidade, o foco no Significado diminuiu. Não há mais necessidade de confirmação, logo, um viés confirmatório surge. Aquilo que procuro já é verdade garantida. O resultado é que a manipulação da informação, de como a recepcionamos, substitui a reflexão, que é o principal meio de se transformar. “A informação na ponta dos dedos encoraja uma atitude mental adequada a um pesquisador, mas pode vir a diminuir a atitude mental necessária a um líder”. (KISSINGER, 2015)

O Ser Humano ainda é o ponto central de toda e qualquer forma de transformação no mundo. Precisamos propagar a atitude proativa para uma Sabedoria renascida. Trata-se da percepção da realidade e do nosso alcance no seu seio.  Em tudo, o Ser Humano é responsável pela forma como conduz sua vida e a do próximo. A internet pode aumentar ou diminuir as características apresentadas acima, mas o resultado dependerá apenas das escolhas que fizermos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Copa do Brasil

Você sabe o que é Presidencialismo de Coalizão e como isso te afeta? – 

Nada mais é do que a forma como nosso Presidente e o Congresso se relacionam. Como eles negociam para alcançar os objetivos nacionais.

Um tal de Sérgio Abranches, sociólogo, entendeu que nosso Sistema Político funciona de uma maneira própria, um jeito misto de se fazer política. Nosso sistema pega a “representação”,  quando escolhemos em quem votamos, e une com a organização em “grupos”, denominado de Coalizão, para alcançar os objetivos prometidos em campanha.

Difícil? Deixem-me facilitar.

Imagine um time de futebol e um campeonato. Temos um técnico, o nosso Presidente, que possui um plano, sua política de Estado. O campeonato será o nosso Sistema Político Brasileiro. Para vencer no campeonato, o presidente criará um time com jogadores, os partidos aliados. Lateral direita, centroavante, lateral esquerda, goleiro, todos esses “partidos” possuem interesses próprios. Na busca pela vitória, o técnico formará um time diferente para assim conseguir implementar sua estratégia para a vitória, essa estratégia é a sua política estatal. Esse time é a Coligação. Sem essa coligação, o técnico não vence o campeonato.

A cada novo jogo, o técnico refaz a escalação e, durante a partida, faz substituições para melhorar o desempenho do time. O seu time, sua base de apoio, acaba sendo mudado no decorrer do campeonato. Na estratégia para a vitória, o técnico, o nosso Presidente, seguirá os seguintes passos:

1 – Traçará a “constituição da aliança eleitoral”, são os requisitos necessários para adentrar ao time. A composição desse time, dessa aliança, seguirá os princípios criados por essa estratégia.

2 – É a escalação do time propriamente dita. Aqui será dada a função de cada jogador. Distribuição de cargos, funções e trabalhos. O lateral direito trabalhará no Ministério da Justiça, o esquerdo, no Ministério do Trabalho. O objetivo é assegurar os melhores jogadores em cada função.  

3 – Agora o jogo começa. É dado o apito inicial. “Bola em jogo”, já dizia Galvão Bueno. As estratégias estão prontas. Os jogadores sabem suas funções. As políticas governamentais são implementadas para a vitória da política estatal presidencial.

Percebam que sem essa Coligação o País fica ingovernável. O motivo é bem simples: sem a figura central de nosso técnico não teríamos uma forma de coordenação. A forma de governo presidencialista, somada ao estilo parlamentarista do nosso congresso, obriga o técnico a procurar apoio formando o Governo de Coalizão. 

Logo, fica claro que, para a vitória do time, a atenção ao voto, tanto do Presidente quanto dos Congressistas, é essencial para a boa gestão. Afinal, o que não queremos é um gol contra, ou uma desarticulação no melhor estilo sete a um.

domingo, 5 de abril de 2020

As últimas testemunhas, Svetlana Aleksiévitch

Por Lucian Freitas.

Um cachorro doente, de nome Cláudio, chega ao veterinário. Após alguns exames o parecer, Claudio será sacrificado. Sua dona pergunta ao doutor se ele sofrerá; no que ele responde que não, pois será o mais humanamente possível. E se o paciente, Claúdio, fosse uma criança, ainda seria humano o sacrifício?
Essa pequena história nos demonstra o questionamento do que seria uma atitude humana. A resposta anda de mãos dadas com a descoberta da essência do Ser Humano. Temos em alta a vida humana. Culturalmente é o mais importante tesouro. Aquele que deve ser protegido e honrado todos os dias da semana, de segunda a domingo, menos em meados do século 20, cujo período chamaremos de quarta-feira à tarde de um dia chuvoso.
Em algum momento da nossa história, um adulto, sempre eles, pegou seu banco, levou a praça, subiu e lá decretou: — somos os mais importantes de todos os seres vivos! Esse adulto, de nome Adalfo, frustrado, pequeno, metido a besta e conhecedor da profunda espiritualidade humana, investigador a nível superior de Sherlock Holmes, percebeu o segredo do sofrimento humano: a jew — saúde — os judeus.
Sagaz como toda pulga em pelo de Lobo, Adalfo, com muita luta, conseguiu companheiros para sua trajetória heroica e fundou um grupo de socorro, uma Liga da Justiça, o Partido Nazista. Todos seres perfeitos que não defecam e nem limpam o nariz após espirro em tempos de gripe. Eles acharam por bem levar a salvação a todos a sua volta. A Europa pedia socorro. Desculpem-me a ousadia de dizer que vocês foram enganados pelo Globalismo e revisionismo materialista-social.
Svetlana decidiu botar a prova esse revisionismo e saiu à procura de testemunhas que comprovassem o heroísmo alemão. Acabou por se encontrar com as pessoas que não foram à guerra, mães e filhos sobreviventes dessa luta completa e inteiramente carregada de motivação essencialista, ou seja, se corressem o bicho pegava e se ficassem o bicho comia.
Seus relatos alcançam além das memórias heroicas e verdades lindas e maravilhosas das salas de cinema. Essas memórias retratam o seco, o duro, o sujo, o terrível do que é ser o lado mais fraco desse cabo de guerra. Cada página do livro é um chute nas genitálias com uma bota de bico de aço
embebida em mertiolate. A vivência dessas crianças vendo suas mães, avós e avôs rebaixados a menos do que animais sem nome — porque animais de nome Cláudio são mais do que isso, são da família. Atualização de definição de humanidade realizada: humanos são animais com nomes bonitos.
As últimas testemunhas é os relatos desses sobreviventes. Cada narrativa, cada memória, simboliza o que há de pior no ser humano: achar-se no direito, desde que esse direito seja o que ele acha que é.
Seres humanos não deveriam ser definidos por sua Biologia, se assim fossemos, a definição seria de “pacotes fétidos de carne, merda e sangue”. Nem por sua Cultura, pois ela é apenas reflexo de algo mais importante. Nem como entidade superior, definição dada por uma força superior, se assim fossemos, o engenheiro genético deveria voltar ao primeiro semestre da graduação na aula de princípios fundamentais de não cometer merda a criar algum ser vivo.
Não! Nós somos as memórias, as histórias que contamos. Sendo assim, se a Memória é como o lago nascente da constituição humana, Svetlana é o canal que transporta histórias para a memória coletiva de toda a Humanidade. Somos memória, somos a história que une essas memórias, somos a história que contamos sobre nossa história.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A velocidade da Luz

Javier Cercas

O devir da crítica

No xadrez, o início do jogo é de extrema importância. Alguns priorizam as aberturas chamadas de clássicas, outros, as mais modernas, que ditam que não há abertura superior e sim a necessária ao sucesso. Na teoria crítica, existem diversas correntes que direcionam a análise da escrita, da Fenomenoloia à Psicanálise.
Dentro dessas duas possibilidades, escolherei a mais libertária. Para desconstruir toda essa história, utilizarei de tudo ao meu alcance para o sucesso dessa critica. Minha escolha se pautará por uma imperatividade, o bom entendimento dessa história. E para tanto partirei da premissa de "análise livre", traduzir o que apreender do texto.
O início da história começa como qualquer outra, com um jovem sonhador. Seu desejo é ser um escritor e, junto com um amigo em um bar, recebe um convite. Esse convite é para ser professor em uma faculdade nos Estados Unidos. Como todo escritor deve ser viajado, ele partiu e lá conheceu Rodney. Esse fato o marcou para sempre, pois não sabia e não entendia como um cínico o conquistara. Rodney é desiludido e tem percepções não idealistas sobre a Vida. Ávido leitor, principalmente de Hemingway, sua crítica sobre o que é ser escritor abalou nosso herói. Afinal, o que é ser escritor? Eis a grande questão dessa história.
Não apenas a busca pela essência, mas também pela busca de entendimento do porquê contamos história. Talvez seja a arte mais antiga do Homo Sapiens, porém a narração é com certeza a primeira a ser marcada na pedra. Muitos percebem as pinturas rupestres como um dado de um tempo há muito esquecido, algo finalizado e pronto como foto. Porém, são  mais do que isso, são o simbolo de uma vontade em um contexto, essas pinturas possuíam uma intenção: se fazer presente no mundo.
Ora, quem não? Fechem os olhos e busquem na memória: quem somos nós? quem são vocês? Conseguem se apresentar como produto pronto? Um ser realizado? "Eu sou aquariano e por isso, junto com o sol em saturno, blá blá blá". Quando busco em minha memória, é a história que eu conto sobre os acontecimentos em minha vida que acabam ecoando na forma como me vejo. 
Aqueles hominídeos, que marcaram a pedra, estavam indo além de um simples ato, eles estavam representando. Representando a si no mundo, estavam moldando o mundo, não aquele de terra e água, mas esse desenvolvido, o nosso lar. Contar história é sedimentar a imaginação como realidade e sua transformação. (Calma, amigo, volta - está me dizendo que sou um fruto imaginário de uma história? Dêem um óscar a este rapaz. Sim, é exatamente isso que estou dizendo.) A sua percepção sobre você é a história que você conta a si, e a percepção dos outros, do que somos para eles. São entidades diferentes, mas também o mesmo ser. Desculpe a desilusão, no final somos coringas em uma narrativa falha e hipócrita.
Com o narrar do livro, a protagonista se vê presente em mudanças conflitivas alheias a sua vontade. Diferente do que a personagem do início sonhara, não é apenas a vontade que muda a vida, a vida também muda nossa vontade. Rodney é um monstro, pois lhe contaram uma história que justificou genocídio sem propósito, e todos sabemos que genocídio sem propósito, ou com propósito, é vazio. O abismo aumenta na medida em que o encaramos. A personagem é um monstro. As pessoas a nossa volta também, porque assim os autorizamos.
No fim, com um belo cinismo, a personagem volta ao mesmo lugar do início: um reflexo cínico. No mesmo bar, ele percebe que histórias foram feitas para serem contadas, mesmo sem serem entendidas. Não cabe ao escritor entender, e sim contar, pois é no ato de transformação pela narrativa que o irreal se solidifica e, assim, talvez consigamos superar esse vazio.