sábado, 8 de abril de 2017

Essa é a última parte do meu primeiro conto escrito seriamente. Três ao todo, foram 4 semanas de escrita. Para ler deve-se começar da parte um, e ler em sequência. Para aqueles que leram desde quando comecei a postar, espero que gostem do final. Eu sinceramente adorei a última parte em especial.

(parte três)

Cronos

Cronos brincava despreocupadamente na varanda. Tinha seis anos agora. E como a mãe previu, era uma peste. Aprontava todas unido ao seu inseparável amigo, O-cão-mais-odiado-de-todos-os-tempos. Apelido carinhosamente dado por Cronos em pessoa. O porquê ninguém sabia. Mas uma coisa era certa, Cronos o amava.
Escutava da varanda os pais conversando. A professora o acusou novamente de aprontar com o colega de turma, Denis. Odiava aquele garoto. Não sabia o que era odiar, só sabia que o pai odiava os políticos e sabia que Denis ia ser um desses políticos no futuro, sabia não, tinha certeza. E por isso o odiava mesmo sem saber o que era odiar.
Um dos outros professores viu Cronos pintar a mochila do Denis durante o intervalo. Tentou levá-lo a direção, inutilmente, porque Cronos estava brincando na educação física sob o olhar de sua professora e ele não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Cronos não precisava estar em dois lugares ao mesmo tempo, só precisava estar em um lugar diferente em um tempo diferente.
Por isso a discussão. Os pais estavam preocupados com o filho. Alguma coisa sobre não ter muito tempo – não entendia porque isso seria um problema. Alguma coisa a ver com câncer. Alguma coisa a ver com a mãe precisar de ajuda no futuro. Alguma coisa sobre o pai não poder ficar por muito tempo. “Ela não precisava da ajuda de ninguém, é só ir ajudar mainha” pensava Cronos.
– Cronos, vem aqui por favor. Pediu o pai. Já conversamos sobre isso, não pode fazer mal aos coleguinhas.
– Mas pai, o Denis tinha machucado a Alice mais cedo puxando o cabelo dela.
– Você é um garoto muito amado e especial. Você fez a coisa certa, mas isso não importa. Você não deve fazer esse tipo de coisa, nunca.
–  Mas eu fiz ele pagar que nem o senhor faz no seu trabalho quando pune os malvados.
– Cronos, você não pode ser descoberto, não pode sair e fazer o que quer. Não é você que deve punir as pessoas. Você tem que brincar e crescer. Promete que nunca mais fará nada do tipo.
– Mas pai. E antes de continuar olhou para o pai e parou. Tá bom, prometo.
– Muito bem, agora vá brincar com o cão sei-lá-o-que.
Saiu pensando no rosto do pai. Sentia-se triste por ter deixado ele com aquela fisionomia.  Mal sabia ele do orgulho sentido pelo pai. Orgulho e preocupação. A dúvida e o medo sempre diziam que seu maior tesouro seria descoberto e seria trancafiado para estudos.
Denis aprontou de novo. E a vontade de sumir com as coisas dele foi muito grande, mas controlada pela lembrança da promessa feita ao pai. Devia ser forte e deixar para os adultos resolverem, afinal o pai era adulto e ele sempre sabe resolver tudo.
O escolar virou a esquina da rua e Cronos viu de relance luzes em vermelho e azul na frente de casa. Forçou o rosto contra a janela para tentar ver melhor, em vão. Quando desceu do ônibus viu que as luzes estavam na frente da sua casa. Correu em direção a ambulância e antes de chegar foi detido por Cleide. Olhou em volta procurando o pai ou a mãe. Sabia o que era aquilo, já havia visto, presenciado.
Tirou de si as mãos de Cleide. Olhava hipnotizado para aquela confusão de cores e pessoas. Sabia o que ia encontrar. Sua mãe, branca como a neve, parada olhando para dentro do veículo, desolada, destruída. Vizinhos em volta, curiosos. O-cão-mais-odiado-de-todos-os-tempos latia ferozmente de dentro da casa. Olhou para a esquina mais ao sul de onde estava e se viu por um instante. Tudo durou alguns segundos, na verdade foram eras. Não precisava perguntar, já sabia quem estava sendo levado pelos paramédicos.
Cleide o carregou para dentro de sua casa. O-cão-mais-odiado-de-todos-os-tempos veio lamber sua mão. Chorou aos seus calcanhares. Em direção ao quarto, só pode ouvir os murmúrios da sua acompanhante, indecifráveis. O mundo havia parado para ele; não, não o mundo. O tempo havia diminuído.
Cronos estava tão nervoso, o coração batia tão rápido, estava eufórico. Finalmente iria visitar o pai. Depois de tantos dias, poderia abraçá-lo. Ao descer do carro, cada passo parecia uma eternidade. Estranho era que isso sempre acontecia quando estava nervoso. Ainda não controlava como queria o pai durantes os treinamentos. “Nunca esqueça de respirar, Cronos” lembrou. “Mantenha a respiração, e sempre avance.”
A mãe o guiou para dentro do quarto. – Continue, Cronos, tenho que falar com o doutor. E foi avançando sempre, um passo por vez, sempre respirando. Com a respiração ofegante, o coração forte no peito – parecia que ia explodir – viu o pai na cama.
– E ai garoto, pode vir mais perto. Você já deve ter visto mesmo.
– Vi não pai. Respondeu olhando para o chão. Não queria mostrar que havia sido medroso.
– Não tem problema, garoto, sempre seja sincero com o seu coração.
O pai o puxou para a cama e o deitou ao seu lado. Cronos sentiu o afago nos cabelos e chorou até dormir. Assustou com um barulho pontual frenético. Era uma máquina ao lado da cama. Antes de poder pensar o que estava acontecendo foi puxado da cama por mãos fortes e firmes de um estranho vestido de verde, era o enfermeiro que o largou no colo da mãe. Não sabia o quanto havia dormido, e nem pensava nisso. Não conseguiu pensar em nada. Não conseguia respirar.
Olhou todas aquelas pessoas mexendo no pai, que o olhava e acenava para ele. Estava o chamando para mais perto. Devagar, tirou as mãos da mainha que o abraçava e andou em direção ao pai; dessa vez lembrou de respirar. Na parede, o relógio parou as onze horas e seis segundos. E ao chegar no lado da cama, pegou a mão do seu guardião, do seu herói. E como efeito, os dois estavam no mesmo instante, na mesma pausa do tempo.
– Oi filhão.
– Pai não morra por favor.
– Bem que eu queria garoto.
– Por que? Eu posso voltar.
– Não sei porque. Talvez nunca saberemos. Não quero que você faça isso, garoto.
– Por favor pai. Disse enquanto o pai acariciava suas bochechas. Eu preciso do senhor.
– Você tem as bochechas da sua mãe. Lembra quando eu viajei e fiquei alguns meses fora? Eu estava naquela praia que você ama tanto.
– Sim, eu lembro.
Silêncio.
Sentiu a mão no seu rosto descer devagar. Agarrou o mais forte que pode. Com a voz tremendo, começou a balbuciar:
– Pai, pai, pai. Repetia enquanto tentava segurar a mão pesada no seu rosto. Em vão.
– Pai! Gritou.
Enfermeiros, médicos, Mainha, todos se admiraram com aquela criança do lado da cama chorando. Afastaram-se para observar. Era só o que podiam fazer.
***
O sol energizava tudo a sua volta, as arvores, a areia, o mar. Nada escapava ao seu ardente toque. O vento soprava forte; contudo, como um carinho intenso e constante, alisava seu corpo. Podia sentir a força do vento contra seu corpo. O barulho da quebra do mar atraia os ouvidos para a seu ritmo constante. Sol, vento e mar uniam-se para criar a música do mundo. Um equilíbrio de beleza, força e sublime.
Caminhava por esse milagre e pensava na sua família, era tudo o que mais tinha de importante no mundo. E se tudo desse certo poderia viver com eles uma vez mais. Se o plano corresse bem, voltaria a ver sua esposa e seu filho. A esperança estava em cheque, tudo se resumia que o seu filho – aquele misterioso milagre – crescesse e se tornasse a pessoa poderosa que estava destinada.
Enquanto caminhava em direção ao soprar do vento iludiu-se com uma miragem. Duas sombras se projetavam a sua frente. Ilusão causada pela irradiação de calor advinda do tapete de areia. Dirigiu-se a ela com os pensamentos nas altas probabilidades e nas dificuldades que o futuro reservava a família. “Se o plano der certo, tudo ficará bem”.
Uma rajada de vento o chamou de volta a caminhada e olhou para a miragem: sua família o olhava de volta. O plano havia funcionado. Ali estavam, a sua frente, esposa e filho. Este crescido, não mais que um adolescente, não menos que um adulto; um jovem alto e bonito sorria e chorava; alegria e jubilo estampavam o seu rosto.

Correu o mais rápido que suas pernas o permitiram. Esqueceu de respirar, o coração explodia em seu peito, lágrimas escorriam pela sua bochecha. Sua família estava a sua frente e corria ao seu encontro também. Abraçou sua esposa, sua alegria, sua musa e amada, beijou-a nas bochechas, no queixo, na boca. Agarrou seu filho, abraçou-o fortemente. Estavam os três juntos novamente, unidos pelo milagre do seu filho, unidos além do tempo.

sábado, 1 de abril de 2017

Mainha
(parte dois)

O bebe a acordou. Ele se movimentava muito, sinal de saúde. Olhou as 7:45 marcadas no relógio sob o criado mudo. “Eita menino que vai dá trabalho esse, viu.” Respirou fundo e aguentou o mexe-mexe do pestinha. Soltou o ar com um sorriso que dizia mais sobre sua alegria do que qualquer poema já escrito.
Assustou-se por alguns instantes ao ver-se sozinha na cama. Ainda assustada, olhou em volta procurando-o só para achá-lo parado de frente a janela.
-- Amor? Chamou. Tá tudo bem? Perguntou. Um movimento nervoso na barriga a fez acariciar a barriga.
-- Amor?! Chamou novamente. Levantou da cama lembrando-se de respirar. De repente, o ar estava pesado. Alcançou o ‘fantasma’ e pegou no seu ombro. Despertou-o.
-- Oi, já está acordada hein, se sente ai que tenho algo para te falar.
-- Amor, sua mão está tremendo pra caramba. O que tem de errado? Fala logo que to nervosa.
Sentada, ouviu tudo. A história toda a surpreendeu de sobremaneira incrível. Por um instante achou que a pessoa a sua frente não era mais o homem com que se casara. Não era mais aquela pessoa que a surpreendia com suas ideias, com sua maneira de ver o mundo. Ele não parecia mais com a pessoa com quem escolhera dividir o mundo que estava em sua barriga.
Mas, algo estava errado. Os olhos dele estavam com uma energia que a hipnotizava. De alguma maneira, de alguma forma, aquela aventura narrada era verdade. Sendo ele doido ou não, ela acreditaria nele. Os olhos inflamavam seu espirito. Ele estava lá, aquela pessoa que ela amava. Aquela pessoa única que a ajudava e a queria feliz. As dúvidas que existiram por alguns instantes foram incendiadas por aqueles olhos.
-- Preciso ver por mim mesma. E foi em direção até A máquina.
Esses dois sempre foram apaixonados. Um mais que o outro. Não é muito difícil de imaginar quem dos dois. Mas em algum momento do tempo, depois de tantas desesperanças, de desistências. Algo mudou. Ela finalmente percebeu e algo nasceu. E não foi o bebe, afinal este só veio muito tempo depois, 17 anos. Algo lindo depois de tanto tempo, de tantas desesperanças, de desistências.
Subiu os degraus dA máquina sobre a metralhadora de desaprovação que era seu marido. Mulher teimosa. Ligou, deu partida, iniciou – qualquer que seja o nome dado para ligar a viagem. Com um clarão ela sumiu. Com um clarão, após o que pareceu séculos para quem ficou, ela voltou. E voltou acompanhada.
O bebê nascera durante a viagem.
A mãe e o filho foram ajudados por um pai incrédulo. O bebê nascera. Inacreditavelmente um bebê nascera em questão de minutos dentro de uma máquina do tempo. Meio que interpretando a pergunta estampada na cara do marido.
-- Falarei dentro de casa, por favor me ajuda com a criança antes. Falarei tudo que você quiser saber, mas me ajude antes. E contou tudo.
Contou toda a viagem. A forma das luzes e todas suas cores. As várias estrelas. Os vários inomináveis fenômenos encontrados. Disse que a viagem pareceu levar horas, talvez dias, para chegar no que parecia o passado. Relatou o mesmo encontro com suas personas do passado. E foi aí que sentiu a contração. Sentiu aquela dor descomunal e em desespero tentou voltar ao presente. No caminho de volta, no percurso onde o tempo parece parar, ela entrou em trabalho de parto. E, no que pareceu uma eternidade de silencio, um choro ecoou por todo aquele percurso de volta para casa.
Pegou aquela criatura que era o seu filho no colo e por horas, talvez dias, semanas, impossível dizer, olhou para criança. Eles tinham um filho. Uma criança nascida no tempo e fora do tempo.
Não conseguiu segurar um riso de satisfação com o espanto dele. O marido estava mais branco que ela – até a mancha atipicamente vermelha no braço estava branca – olhava para ela e para criança, mudo.
-- Terra para amor, está ai amor?
-- Estou, acho que estou, ta tudo bem com vocês dois?
-- Sim, tive tempo para me acalmar e pensar. Devemos destruir essa máquina.

-- Concordo. Amanha darei um jeito nessa coisa.