sábado, 1 de abril de 2017

Mainha
(parte dois)

O bebe a acordou. Ele se movimentava muito, sinal de saúde. Olhou as 7:45 marcadas no relógio sob o criado mudo. “Eita menino que vai dá trabalho esse, viu.” Respirou fundo e aguentou o mexe-mexe do pestinha. Soltou o ar com um sorriso que dizia mais sobre sua alegria do que qualquer poema já escrito.
Assustou-se por alguns instantes ao ver-se sozinha na cama. Ainda assustada, olhou em volta procurando-o só para achá-lo parado de frente a janela.
-- Amor? Chamou. Tá tudo bem? Perguntou. Um movimento nervoso na barriga a fez acariciar a barriga.
-- Amor?! Chamou novamente. Levantou da cama lembrando-se de respirar. De repente, o ar estava pesado. Alcançou o ‘fantasma’ e pegou no seu ombro. Despertou-o.
-- Oi, já está acordada hein, se sente ai que tenho algo para te falar.
-- Amor, sua mão está tremendo pra caramba. O que tem de errado? Fala logo que to nervosa.
Sentada, ouviu tudo. A história toda a surpreendeu de sobremaneira incrível. Por um instante achou que a pessoa a sua frente não era mais o homem com que se casara. Não era mais aquela pessoa que a surpreendia com suas ideias, com sua maneira de ver o mundo. Ele não parecia mais com a pessoa com quem escolhera dividir o mundo que estava em sua barriga.
Mas, algo estava errado. Os olhos dele estavam com uma energia que a hipnotizava. De alguma maneira, de alguma forma, aquela aventura narrada era verdade. Sendo ele doido ou não, ela acreditaria nele. Os olhos inflamavam seu espirito. Ele estava lá, aquela pessoa que ela amava. Aquela pessoa única que a ajudava e a queria feliz. As dúvidas que existiram por alguns instantes foram incendiadas por aqueles olhos.
-- Preciso ver por mim mesma. E foi em direção até A máquina.
Esses dois sempre foram apaixonados. Um mais que o outro. Não é muito difícil de imaginar quem dos dois. Mas em algum momento do tempo, depois de tantas desesperanças, de desistências. Algo mudou. Ela finalmente percebeu e algo nasceu. E não foi o bebe, afinal este só veio muito tempo depois, 17 anos. Algo lindo depois de tanto tempo, de tantas desesperanças, de desistências.
Subiu os degraus dA máquina sobre a metralhadora de desaprovação que era seu marido. Mulher teimosa. Ligou, deu partida, iniciou – qualquer que seja o nome dado para ligar a viagem. Com um clarão ela sumiu. Com um clarão, após o que pareceu séculos para quem ficou, ela voltou. E voltou acompanhada.
O bebê nascera durante a viagem.
A mãe e o filho foram ajudados por um pai incrédulo. O bebê nascera. Inacreditavelmente um bebê nascera em questão de minutos dentro de uma máquina do tempo. Meio que interpretando a pergunta estampada na cara do marido.
-- Falarei dentro de casa, por favor me ajuda com a criança antes. Falarei tudo que você quiser saber, mas me ajude antes. E contou tudo.
Contou toda a viagem. A forma das luzes e todas suas cores. As várias estrelas. Os vários inomináveis fenômenos encontrados. Disse que a viagem pareceu levar horas, talvez dias, para chegar no que parecia o passado. Relatou o mesmo encontro com suas personas do passado. E foi aí que sentiu a contração. Sentiu aquela dor descomunal e em desespero tentou voltar ao presente. No caminho de volta, no percurso onde o tempo parece parar, ela entrou em trabalho de parto. E, no que pareceu uma eternidade de silencio, um choro ecoou por todo aquele percurso de volta para casa.
Pegou aquela criatura que era o seu filho no colo e por horas, talvez dias, semanas, impossível dizer, olhou para criança. Eles tinham um filho. Uma criança nascida no tempo e fora do tempo.
Não conseguiu segurar um riso de satisfação com o espanto dele. O marido estava mais branco que ela – até a mancha atipicamente vermelha no braço estava branca – olhava para ela e para criança, mudo.
-- Terra para amor, está ai amor?
-- Estou, acho que estou, ta tudo bem com vocês dois?
-- Sim, tive tempo para me acalmar e pensar. Devemos destruir essa máquina.

-- Concordo. Amanha darei um jeito nessa coisa.

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