sexta-feira, 24 de março de 2017

O pai
(parte um)

Desceu a rua ao fim da tarde. Mais uma vez o tempo estava com aquela cor cinza de um lado do céu, e do outro o sol irradiava seu típico brilho. O céu de Brasília sempre surpreende. Gigantesco. Como um espelho ele irá refletir o ânimo de quem o olha.
A caminhada do BRT até em casa era um pouco demorada. Não gostava de pegar o chamado ônibus 'alimentadora', ele dava uma volta desnecessária. “O que são dez minutos de caminhada até em casa?!” pensava consigo enquanto admirava o céu. O céu de Brasília é um mar para as almas livres.
Virou a esquina. Os pedreiros do vizinho da esquina guardavam seus materiais. Ali estava uma obra que demorava um tempo e ainda demoraria mais. Ao tirar os olhos daquelas pessoas cansadas, deparou-se com uma pequena multidão em frente à sua casa. A rua sempre foi uma tranquilidade só – menos a maldita escola que era sua vizinha. Depois de ouvir por dezessete anos crianças gritando perde-se um pouco da paciência – mas nesse dia ela estava mais agitada que o normal. Talvez uma porção, ou meia, de pessoas estavam observando e comentando em frente a uma máquina suspeita dentro da sua casa.
Era uma máquina. Uma de aspecto surreal, de cor acinzentada. Parecia aqueles globos de vidro de neve que se comprava em viagens ao exterior. A base era em tripé. De longe parecia uma miragem, e de perto irradiava um frio suspeito. Não media mais de três metros de altura e não muito menos que a metade na largura.
“Boa tarde" ele disse. "Alguém sabe me dizer o que é isso? ”
Todos no grupo o olharam e deram espaço para sua esposa surgir. E como sempre admirou suas bochechas. Sempre gostou delas.
“Oi, isso estava aqui quando eu cheguei. Ninguém viu quando chegou. Perguntei a Cleide, mas ela não sabe coisa alguma.”
Olhou com suspeita. Largou a bolsa de lado e foi investigar o objeto.  O metal vibrava sobre sua mão. “Estranho.” Era o mínimo que ele conseguia falar para descrever A máquina.
Algumas horas depois ainda estava investigando A máquina. Sua esposa grávida, do primeiro filho, a olhava junto com um mínimo de esforço. Despachou os vizinhos porque afinal aquilo estava na sua casa e como vizinhos adoram uma fofoca não queria eles por perto.
Passava a meia-noite. E ele ainda estava lá, intrigado, nervoso, um pouco assustado. A esposa veio lhe chamar.
“Deixe isso para amanha que já ta tarde e ta frio.”
“Você tem razão. Amanha ligo nos correios e pergunto. Foi bem um entrega errada e a empregada não viu. Como ta o pirralho? Chutou muito?” Aproximou-se e postou a mão na barriga.
“Sim. Pois venha então. Pirralho uma pinoia. Parece um lutador ele. Deve ter puxado o pai pitizento.” E o Beijou no queixo quando se aproximou. “Adoro essa barba.”
Levantou da cama. “Pitizento” pensou, com um sorriso na face, e voltou-se a ela. Era sua esposa, sempre sonhara com ela. Com essa família. Acariciando seu cabelo disse em sussurro “Pitizento não, mais pra agoniado” Beijou-a e foi olhar A máquina uma vez mais.
Dessa vez finalmente conseguiu abrir a cabine. Como, não imagina. Entrou e viu que não havia botões ou qualquer coisa que lembrasse o tipo. Existia apenas uma redoma do tamanho de uma palma. Branca. No centro da cabine. Ficou curioso. E claro pôs a mão em cima da redoma. A máquina vibrou. Vibrou muito forte; no entanto, fez som nenhum. Admirava perplexo a luz azul branqueada que ia envolvendo A máquina. Estava mais curioso que assustado. Só quando a cabine fechou e A máquina vibrou mais forte que a emoção mudou. Agora estava mais assustado que curioso. Tentou e tentou inutilmente.
Clarão! Brilho intenso. Tão intenso que o fez fechar os olhos. Não ouvia nada, apenas a vibração. A vibração tomou conta de tudo. Sentia os ossos vibrando, ardendo. Imaginou que fosse assim dentro de um microondas. Uma pressão. Igual quando mergulhava nos arrecifes ou naufrágios. De repente, silêncio. O mais absoluto e assustador. Daqueles que fazem parecer os pensamentos gritando. Abriu os olhos devagar.
“O que é isso?!” Como era possível, não sabia. Não podia conceber o que estava acontecendo, e não duvidou que era verdade, a sua imaginação não era tão boa para criar algo tão surpreendente e intenso. Sabia que era verdade, sabia que não estava mais em casa. Não sabia nem se estava morto ou vivo.
O que ele via eram cores das mais variadas. Tuneis. Explosões. Luzes. E mais luzes. Cores impossíveis. Percebia que estava em uma velocidade estarrecedora. Mas se percebia, não sabia como e nem sentia a velocidade. Era apenas uma daquelas percepções inexplicáveis que os seres humanos possuíam no primórdio da existência, mas que agora só alguns poucos tinham o mínimo dela.
Foi quando deu por si: a mão ainda estava ligada a redoma dA máquina. Quando a tirou dali, A máquina parou. Estava flutuando em cima da sua casa. Incrédulo, ele olhava a cena abaixo. Assustado ele se viu saindo dA máquina e caminhar em direção a amada, colocar a mão na barriga, o beijo no queixo, e os dois caminhando rindo para dentro da sua casa. A sua casa abaixo de si com sua esposa seu filho não nascido as luzes se apagando a noite fria o céu limpo a lua brilhando. “Mas o que inferno é isso?????” Desesperado, em pânico, não pensou. Colocou a mão na redoma uma vez mais, e novamente aquele efeito esmagador e depois a tranquilidade. Dessa vez não se admirou com as luzes, estava assustado demais. “Por favor, vá para casa.” E estava no mesmo lugar de onde saíra. Saiu como um zumbi para dentro de casa.

Não havia dúvidas. Ele viajara no tempo. Era incrível demais para a mente ter criado, foi real demais. Ele lembra de ter sentido tudo o que via na cena que presenciou. Ele sentiu e ouviu tudo. Até o amor. “Será possível sentir o amor de uma coisa que eu estava vendo? Que já havia vivido?”

(Continua)

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