A velocidade da Luz
Javier Cercas
O devir da crítica
No xadrez, o início do jogo é de extrema importância. Alguns priorizam as aberturas chamadas de clássicas, outros, as mais modernas, que ditam que não há abertura superior e sim a necessária ao sucesso. Na teoria crítica, existem diversas correntes que direcionam a análise da escrita, da Fenomenoloia à Psicanálise.
Dentro dessas duas possibilidades, escolherei a mais libertária. Para desconstruir toda essa história, utilizarei de tudo ao meu alcance para o sucesso dessa critica. Minha escolha se pautará por uma imperatividade, o bom entendimento dessa história. E para tanto partirei da premissa de "análise livre", traduzir o que apreender do texto.
O início da história começa como qualquer outra, com um jovem sonhador. Seu desejo é ser um escritor e, junto com um amigo em um bar, recebe um convite. Esse convite é para ser professor em uma faculdade nos Estados Unidos. Como todo escritor deve ser viajado, ele partiu e lá conheceu Rodney. Esse fato o marcou para sempre, pois não sabia e não entendia como um cínico o conquistara. Rodney é desiludido e tem percepções não idealistas sobre a Vida. Ávido leitor, principalmente de Hemingway, sua crítica sobre o que é ser escritor abalou nosso herói. Afinal, o que é ser escritor? Eis a grande questão dessa história.
Não apenas a busca pela essência, mas também pela busca de entendimento do porquê contamos história. Talvez seja a arte mais antiga do Homo Sapiens, porém a narração é com certeza a primeira a ser marcada na pedra. Muitos percebem as pinturas rupestres como um dado de um tempo há muito esquecido, algo finalizado e pronto como foto. Porém, são mais do que isso, são o simbolo de uma vontade em um contexto, essas pinturas possuíam uma intenção: se fazer presente no mundo.
Ora, quem não? Fechem os olhos e busquem na memória: quem somos nós? quem são vocês? Conseguem se apresentar como produto pronto? Um ser realizado? "Eu sou aquariano e por isso, junto com o sol em saturno, blá blá blá". Quando busco em minha memória, é a história que eu conto sobre os acontecimentos em minha vida que acabam ecoando na forma como me vejo.
Aqueles hominídeos, que marcaram a pedra, estavam indo além de um simples ato, eles estavam representando. Representando a si no mundo, estavam moldando o mundo, não aquele de terra e água, mas esse desenvolvido, o nosso lar. Contar história é sedimentar a imaginação como realidade e sua transformação. (Calma, amigo, volta - está me dizendo que sou um fruto imaginário de uma história? Dêem um óscar a este rapaz. Sim, é exatamente isso que estou dizendo.) A sua percepção sobre você é a história que você conta a si, e a percepção dos outros, do que somos para eles. São entidades diferentes, mas também o mesmo ser. Desculpe a desilusão, no final somos coringas em uma narrativa falha e hipócrita.
Com o narrar do livro, a protagonista se vê presente em mudanças conflitivas alheias a sua vontade. Diferente do que a personagem do início sonhara, não é apenas a vontade que muda a vida, a vida também muda nossa vontade. Rodney é um monstro, pois lhe contaram uma história que justificou genocídio sem propósito, e todos sabemos que genocídio sem propósito, ou com propósito, é vazio. O abismo aumenta na medida em que o encaramos. A personagem é um monstro. As pessoas a nossa volta também, porque assim os autorizamos.
No fim, com um belo cinismo, a personagem volta ao mesmo lugar do início: um reflexo cínico. No mesmo bar, ele percebe que histórias foram feitas para serem contadas, mesmo sem serem entendidas. Não cabe ao escritor entender, e sim contar, pois é no ato de transformação pela narrativa que o irreal se solidifica e, assim, talvez consigamos superar esse vazio.