quinta-feira, 9 de março de 2017

Acordou de espanto, só com os latidos selvagens e histéricos - na medida da existência de histeria em cachorros - de sua cadela. "Cala a boca, bendita!!!", ordenou com um resmungo cansado. De nada adiantou. Ou o animal não ouvia, ou não se importava, de qualquer maneira continuou irritantemente. "Alguma coisa está errada", mais desperta pensou.

Tateou em volta buscando o celular para saber as horas. Estranho, jurava que o tinha posto para carregar. Pelo visto faltou luz - mais latidos insuportáveis - Meg, para de latir!!Vai acabar acordando a casa toda.

"Que Merda, Meg já mandei parar."
"Mais que bosta!! O que infernos está acont... O que é isso? Urina no chão?? Você mijou tudo isso? Meg?, Meg, venha aqui!!! Para de latir!! Saco! O interruptor de luz não está funcionando. Onde está você, Meg? Aiii!! Não morde! Vem cá está tudo bem não precisa tremer meu deus você está toda fria se acalma por favor. Já passou. Vem comigo, vamos ver se tem luz na rua, no edifício ou no quarteirão. Vamos ver pela janela..."

"Mas o que diab...?! Que porr...?? Que vermelhidão rubro é esse cobrindo a lua??"

Diante daquele vermelho inexplicável a preencher a lua e todo o bairro, sentiu um tremor gelado, horripilante, subir pela espinha. Aquela cor macabra, de baixo espectro, sinistra no mínimo, trouxe-lhe as piores memórias escondidas no seu subconsciente, seus piores medos estão voltando para amedrontá-la. Era como se o fenômeno estivesse se alimentando do seu pavor, e os seus sentimentos dele. Qualquer ser vivo presenciando aquela energia espectral inconcebível pela natureza, por certo teria sua alegria sugada de si; qualquer alma sensível aos piores sentimentos só poderiam ver o desespero na sua alma.

Conseguiu se desvencilhar com toda a sua força de espírito do devaneio - causada por uma hipnose forçada pela soma de forças maquiavélicas ali presente - só para descobrir um cheiro fétido, adocicado e apodrecido. Um mistura de mofo com algo indistinguível. Não existia mais medo, apenas pavor absoluto.

Correu para fora do quarto, desesperada por ajuda, e quando abriu a porta sufocou por instante. O cheiro tomara proporções inconcebíveis, qualquer ser humano comum já teria desmaiado com aquela podridão. Não conseguiu não pensar no pior significado disso: morte.

Dirigiu-se apressadamente para a sala. Nada de luz. Apenas silêncio. Uma claridade advinda da porta que dava para o corredor do prédio chamou sua atenção. Tateou o interruptor: nada de luz. Pelo visto o blecaute foi geral, Meg. Mas o que infernos está acontecendo? Por que infernos a porta está aberta??? Caminhou em direção a luz que atravessava a porta escancarada e descobriu que a luz vinha do elevador.

Em um último ato de coragem, enlouquecida pelo medo, tentou abrir a porta com todas suas forças; quando conseguiu abrir um mínimo sequer, uma força sobre-humana quase arrancou-lhe o braço, fechando-a novamente. 

"Filha da p...", gritou liberando todo o seu medo.

E assim, do nada, surpreendentemente, a luz voltou.

Com um alívio, trancou a porta imediatamente, de todas as forças possíveis: ferrolho, tranca, cadeado, tudo que estava em suas mãos. Na volta para o quarto, seu coração parou ao perceber que o cheiro ainda estava por lá. Buscou olhar para a varanda na esperança de não ver a luz. Ela ainda estava lá, fraca, mas ainda presente. O que lhe causou espanto foi sentir o cheiro ainda presente na casa, também diminuto.

Com a mão no peito, afagando-o iludidamente para acalmá-lo, deu-se consciência do silêncio na casa: os latidos haviam parado. Ao chegar ao quarto, só viu morte no chão e sangue nas paredes; e o mais incrível: sua cadela, que antes possuía pelagem negra como a noite, brancas agora como a neve. Perdeu todo o controle que ainda havia em si, correu em direção ao quarto do irmão... mais morte.... fugiu para o quarto dos pais e então, ali, foi sugada pelo vórtice do mais profundo, o mais grotesco, o mais inconcebível e inominável: desespero.

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