quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Essa página que você encontrou veio de um diário que a muito escrevi. Não se assuste por só encontrar essa pequena parte; não podia correr o risco de deixá-la junto comigo, arrepio-me só de lembrar daquele evento. Não adianta procurar o resto do diário, ele irá comigo à outra vida.

Meu nome é Vladimir; eu era militar do Exército Soviético. Fui comandante da Polícia Militar durante quinze anos. Acumulei condecorações. Prendi e investiguei os piores inimigos da mãe Rússia. Sempre fui rígido e seguia sempre as regras. Meu apelido era de “O Imparável”, porque quando eu começava não parava até encontrar a verdade. Meus subordinados trabalhavam duro; fazia questão disso. Comandava com mãos de ferro.

Quando criança sempre ouvia história de terror, lobisomens... Monstros que se escondiam às sombras da noite. Onde vinham pegar aquele que não obedecia aos pais. Com o passar da minha carreira percebi que os grandes monstros são os humanos. Monstros sem coração que matam e destroem por ganância e ideologia. Era o que pensava, mas a Noite é cheia de segredos.

Essa memória atormenta meus sonhos. Transforma-os em pesadelos horripilantes que me fazem acordar aos berros – isso quando não acordo sufocando, tentando puxar ar com toda a força dos meus pulmões. Já vi coisas terríveis, cruéis, que me fizeram duvidar da bondade no homem e que apenas nós somos maus – até aquele momento.

Mas o que vi naquela montanha, investigando aquelas mortes, naquela noite, é algo que jamais esquecerei. Escrevo aqui para tentar exorcizar e me ver livre desses demônios indescritíveis.
Estava em uma reunião com os comandantes no Kremlin quando recebi uma convocação ordenando minha imediata presença na passagem Igor Dyatlov, ao norte dos montes Urais, na costa leste da montanha Kholat Syakhl, cujo nome em mansi é Montanha da Morte. No memorando só informava que era a respeito de algumas mortes estranhas na passagem.

De imediato, entrei-me no helicóptero e pus-me a caminho. Após algumas horas de voo, olhei pelo vidro minúsculo para admirar a paisagem – não estava nervoso nem nada, muitas vezes já ocorreu de ser acionado para investigar desaparecimento, e mortes também, de jovens exploradores; se eu soubesse do que presenciaria teria retornado de imediato.

A montanha se apresenta com uma imposição majestosa e sombria. Da base ao cume, é de uma dureza palpável. A grama verde, em dias de primavera, abraça a montanha como um manto suave. Mas não naquela época, era inverno, e nada daria um aspecto tão desprovido de vida quanto aquela mistura de branco com o preto da montanha. No final, as uniões das duas cores resultaram num cinza apático. Senti-me sem esperanças só por olhar aquela paisagem.

Ao chegar na base de operações montada a base da montanha, encontrei-me com o sargento Fiódor que me pôs a par da situação. Dez alpinistas haviam partido para escalar a montanha e estudar a geologia do local e após 10 dias não retornaram as tentativas de comunicação da polícia local. Quando esta subiu, encontrou todo o acampamento destruído e por isso fomos convocados.

Quando encontrei o local, o acampamento era de uma destruição assombrosa. Todas as barracas estavam cortadas, objetos usados para os exames geológicos destruídos. O que constatei me deixou com um frio na alma. Os rasgados haviam sido feitos de dentro para fora das barracas. Não havia pegadas em lugar algum. Uma haste de titânio estava derretida. Havia pegadas em direção a um bosque próximo, seguimos de imediato.
Não há palavras capazes de descrever a minha emoção quando me deparei com o que estava no bosque. No máximo descrever o achado da maneira mais próxima possível. Na beira da floresta, sob um grande e antigo pinheiro, foram encontrados os restos de uma fogueira, juntamente com os primeiros dois corpos, descalços e usando apenas roupa de baixo. Entre o bosque e o acampamento estavam outros três corpos, mortos em posição que sugeria que estivessem tentando voltar às barracas. Eles foram encontrados separadamente, a distâncias de 300, 480 e 630 metros do pinheiro.
A busca pelos quatro esquiadores restantes levou mais de dois meses. Eles foram finalmente encontrados em 4 de maio, debaixo de quatro metros de neve, em uma ravina embrenhada na mata próxima ao pinheiro.
O exame dos quatro corpos encontrados em maio mudou completamente o cenário. Três deles apresentavam ferimentos fatais, sendo dois com fraturas cranianas e dois com extensas fraturas torácicas. A força necessária para provocar tais ferimentos teria de ser extremamente alta, com um dos especialistas comparando-a à força de uma colisão automobilística. O mais misterioso é que os corpos não traziam feridas externas, como se tivessem sido esmagados por um alto nível de pressão. Apenas um dos mortos tinha um ferimento externo considerável: estava sem a língua. A análise das roupas identificou que elas continham um elevado nível de radiação.
Depois desse período e de ouvir as testemunhas que disseram ter visto esferas voadoras brilhantes no céu da montanha. dei como encerrada as investigações,.
Um ano depois, intrigado com os relatos das testemunhas, instalei-me no mesmo lugar dos jovens na tentativa de presenciar ou na esperança de alguma coisa me surpreender.
Agora, caro amigo ou amiga, quando voltei da montanha e contei a meus superiores eles me tacharam de louco. Admito que algumas vezes depois do que presenciei naquela noite, quase concordei com eles.
Descreverei o que vi, por que o que senti é impossível de se dizer sem entrar no redemoinho de desespero. Eram várias luzes, verdes, laranjas, douradas, vermelhas. Cores que nunca vi em lugar algum faziam movimentos incríveis e assombrosas. Todo o ar esquentou a minha volta, mas mesmo assim não suava. O ar havia parado, e ainda assim conseguia respirar- ao menos acredito que respirava.
Depois do que pareceu horas desse show surreal, as luzes começaram a criar forma humanoide que não tentarei descrever na certeza de que não seria fiel a monstruosidade apresentada a mim. Eu estava hipnotizado.
Quando a criatura se aproximou já me perguntava por que ainda estava ali observando. Foi quando gritos tão tenebrosos, que me seguem até hoje, levaram minhas mãos a minha cabeça. Eu tentava desesperadamente mover minhas pernas, mas era em vão. A loucura daquele grito ia ficando mais forte a medida que o vulto se aproximava. A um metro de distância foi que percebi: os monstros contados a mim por minha avó eram reais. E ele estava ali a menos de um metro já. Não conseguia ouvir meus pensamentos, aquele grito paralisava minha mente.
O monstro estendeu sua mão e agarrou meu braço. Uivei igual a um animal bestial. Gritei com todo o ar que por algum milagre ainda tinha em meus pulmões. Oh! Aquelas imagens! Que imagens! O que vi depois do contato daquele ser me faz chorar. A dor que se sucedeu é igual a mil agulhas nas pálpebras.
Consegui usar a última resistência que havia em mim. Peguei minha faca e sem demora a enfiei na minha perna. Com isso despertei da hipnose, daquele horror, e me pus a correr montanha abaixo. O espectro gritou, talvez pela dor física que senti ou por alguma razão que desconheço, e desapareceu. Aos poucos as luzes foram sumindo, na medida em que me afastava daquela abominação boreal.
Você pode não acreditar em mim, caro amigo. Mas, as marcas que possuo no corpo, a da faca e do agarro pelo fantasma provam que foi real. A ferida da facada por algum motivo não sara. E a marca das garras do monstro marcaram minha pele igual ferro em brasa marca algum animal. E toda vez, na data do encontro, ela arde, mas não é quente, é fria e a pele ganha uma descoloração medonha.

Você que encontrou essa página, nessa montanha, antes do mês de fevereiro: corra! Corra o mais rápido que puder! Corra por sua vida!




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